quarta-feira, 8 de julho de 2009

LENDA DA FIGUEIRA DA FOZ

A FIGUEIRA (NA FOZ)



A bela cidade de Figueira da Foz, minha terra natal, possui uma das mais bonitas praias portuguesas, conhecida como “Praia da Claridade”.
Penso que poucas pessoas saberão de onde lhe vem o bonito nome de FIGUEIRA DA FOZ.
De pequenina ouvi contar a sua história, que teria começado por ser Figueira NA Foz. Mas o melhor será relatar aquilo de que me lembro:
Conta uma velha lenda que no sopé da Serra da Boa Viagem, que fica muito próxima da cidade, existia um castelo onde vivia um rei, viúvo, e sua filha, Nahida, para além de toda a corte.
Do castelo via-se o mar e a serra, e diziam os “antigos” que, a sul e a nascente, havia um belo rio e uma enorme planície verdejante.
A rainha, que o rei amara perdidamente, morrera ao dar à luz a sua única filha, Nahida. O rei ficara de tal modo transtornado com a sua morte que impôs uma lei que expulsava do castelo todas as famílias que tivessem filhos varões com menos de 20 anos, assim como quem os viesse a ter até 20 anos depois do nascimento de Nahida.
Pretendia o rei, com esta medida, evitar que sua filha viesse a morrer de parto como acontecera com a mãe, a sua idolatrada esposa.
Queria, pois, que a filha, para quem transferira todo o afecto e amor que tivera por sua esposa, vivesse muitos anos, para o que deveria ser casta.
Deste modo a princesinha não poderia conhecer nem brincar com qualquer criança do sexo oposto.
A sua melhor amiga, da mesma idade, Zahra, era a filha mais nova dum rico fidalgo por quem o rei nutria especial simpatia e confiança.
Entre as duas crianças havia uma enorme amizade e ternura.
A vida ida decorrendo normalmente até que uma manhã Nahida foi acordada subitamente pela sua ama que, aflita, lhe contou que seu pai mandara expulsar do castelo toda a família de Zahra.
Durante dois anos a princesa manteve-se presa dum profundo desgosto, que a fazia chorar pela perda da amiga e da crueldade do pai.
Certo dia a princesa arquitectou um plano para fugir do castelo. Esperou pela noitinha e, enganando a vigilância dos guardas, caminhou em direcção ao rio, cuja água brilhava ao luar.
A uma distância razoável do castelo avistou uma árvore frondosa, para os lados da foz do rio. Aproximando-se, viu, escondida entre altos juncos e alguns salgueiros, uma cabana. Encaminhando-se, receosa mas cheia de curiosidade, reparou num pequeno barco ancorado junto à entrada da cabana.
No silêncio reinante pareceu-lhe perceber o som de uma respiração compassada, como de alguém que estivesse dormindo...
Avançando sem ruído, foi entrando, deparando-se, primeiro, com remos, redes e bóias suspensas dos ramos de um salgueiro. A um canto da pequena cabana encontrava-se um catre vazio, coberto por tecido limpo e renda fina. No chão, a seu lado, dormia tranquilamente um robusto cão, de pêlo cuidado.
Tão silenciosa como entrara saiu da cabana e, desistindo de fugir sem descobrir aquele mistério, voltou ao castelo.
No dia seguinte a velha ama contou à princesa que à volta do castelo rondava um bonito e manso cão que parecia trazer amarrado à coleira um pequeno objecto.
Na noite desse dia a princesinha voltou de novo à cabana dos salgueiros.
Dentro da cabana, com todo o cuidado retirou da coleira do cão um pequeno invólucro de cartão que continha dentro um manuscrito.
Surpreendida, desenrolou-o e leu-o com os olhos rasos de lágrimas.
Era uma mensagem da sua companheira de infância que fora expulsa por seu pai.
Dizia-lhe que, se a quisesse ver, fosse junto à figueira, perto da foz do rio, pois que era debaixo dessa árvore que dormia quase todas as noites de verão, por se sentir ali mais fresca e segura.
Nahida acabara de ler o manuscrito que lhe era dirigido. Olhou em direcção à figueira e começou a correr como uma louca em direcção á frondosa fárvore que ficava perto da foz do rio
Ali chegada, depois de se abraçarem e fazerem amor, juraram nunca mais se separarem.
O que acontecera foi que, ao nascer Samuel, lhe fora dado o nome de Zahra, passando a andar vestido de menina. Os pais tentaram evitar, daquela forma , serem desterrados para longe do castelo.
Só que, certa noite de verão, o rei surpreendeu, nus, sua filha e Samuel, beijando-se apaixonadamente,



o que o levou a expulsar do castelo a família de Zahra/Samuel.
E foi por isso que Nahida, depois de ler o manuscrito, correu para junto de Samuel, encontrando-o junto da frondosa figueira que ficava perto da foz do rio
Pouco tempo depois, providencialmente, o rei morreu.
Meses depois ambos resolveram mandar erigir junto à velha figueira um palácio de verão para assinalar para sempre o seu reencontro. À volta desse palácio à beira rio foi surgindo, ao longo dos tempos, uma bonita povoação de onde se avistava, a norte, no coração de Buarcos, o castelo do reino do qual ainda hoje restam vestígios.
A essa nova povoação, virada a sul do castelo, o povo passou a chamar Figueira da Foz, em homenagem àquele atribulado e persistente amor.

Mariazita, Julho de 2007.
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Figueira da Foz em 1888: