quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

UMA FÁBULA SOBRE A FÁBULA

Quando Deus criou a mulher, criou também a Fantasia.

Um dia, a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid.
Envoltas as lindas formas num véu claro e transparente, foi bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Verdade – respondeu ela com voz firme. Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Rashid, o sheik do Islão.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:
- Senhor – disse, inclinando-se humilde – uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Rashid, Príncipe dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se A Verdade.
- A Verdade? – exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. A Verdade quer penetrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a nossa desgraça! Diz-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!
O chefe dos guardas voltou com a resposta do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso califa. Com esses ares impudicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harum Al-Rashid. Volta, pois, pelos caminhos de Alá!
Vendo que não conseguia realizar o seu intento a Verdade ficou muito triste, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harum Al-Rashid, cujas portas se fecharam à diáfana formosura.

Mas… Allahur Akbar! (Deus é grande!)

Quando Deus criou a mulher também criou a Obstinação.
E a Verdade continuou a alimentar o seu propósito de visitar um grande palácio. E tinha que ser o palácio onde morava o sultão Harum Al-Rashid.
Cobriu as suas lindas formas com um couro grosseiro como os que usavam os pastores, e foi novamente bater à porta do sumptuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas.
Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Acusação – respondeu ela, em tom severo. Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Rashid, Comendador dos Crentes.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se com o grão-vizir:
- Senhor – disse, inclinando-se humilde – uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão.
- Como se chama ela?
- A Acusação!
- A Acusação? – repetiu o grão-vizir, aterrorizado. A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse? A perdição, a desgraça!
Diz-lhe que não, não pode entrar. Diz-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor.
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Rashid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Alá!
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, a Verdade ficou ainda mais triste. Afastou-se vagarosamente do grande palácio, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.

Mas… Allahur Akbar! (Deus é grande!)

Quando Deus criou a mulher criou também o Capricho.
E a Verdade encheu-se do vivo desejo de visitar um grande palácio.
E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Rashid.
Vestiu-se com riquíssimos trajes, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto num manto diáfano de seda, e foi bater à porta do palácio em que vivia o senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês do Ramadão, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Fábula – respondeu ela, em tom meigo e mavioso. Quero falar ao vosso amo e senhor, Emir dos Árabes.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:
- Senhor – disse inclinando-se, humilde – uma linda mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência do nosso amo e senhor, o sultão Emir dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se A Fábula.
- A Fábula? – exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. A Fábula quer entrar neste palácio! Alá seja louvado! Que entre! Bem vinda seja a encantadora Fábula. Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes. Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E, abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harum Al-Rashid, vigário de Alá, e senhor do grande império muçulmano.

Lenda árabe

35 comentários:

direitinho disse...

Comecei a ler e não parava de pensar:
Onde irá ela buscar tão lindos contos.... maravilhosa imaginação...
É lindo e absorveu-me esta fábula.

Pérola disse...

Fantástica fábula.Estou adorando, essa eu desconhecia,vou trabalhar com meus alunos rs.
Parabéns.
Um lindo dia e um grande beijo.

17 de Fevereiro de 2010 10:24

Silvana Nunes .'. disse...

Bom dia.
Nossa, encontrei histórias. Gostei desse espaço. parabéns.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa semana para você.

Bergilde Croce disse...

Amiga,sou louca por fábulas e leio sempre para os filhotes antes de irem dormir.Esta não conhecia,mas já estou copiando e estarei passando também para eles.Aqui mudamos de link-www.filhotesadorados.blogspot.com
Abraços!

Vitor Chuva disse...

Olá Mariazita!

A história é muito bonita, contada com muita graça, mas como todas as fábulas encerrará certamente uma moral - que é para isso que as fábulas foram criadas, como certamente diria o Senhor de La Palisse.
E aqui a mensagem por detrás da história parece ser a de que a verdade nem sempre poderá ser apresentada nua e crua - há formas próprias para o fazer, para que o destinatário da mesma se disponha a ouvi-la, e então a mesma talvez aceite: A verdade nua por vezes choca e desgrada, e será então necessário vesti-la da roupagem certa - disfarçar essa sua nudez, para que a porta lhe seja aberta - e ela possa ser ouvida.
Gostei muito.
Beijinhos.
Vitor

Vicktor disse...

Querida Mariazita

Uma bela lenda... vinda do nosso imaginário das Mil e Uma Noites e que ilumina o nosso sentir tal como a Lua Levantina o faz.

Muito reconhecido por esta tua bela partilha.

Beijinho.

Pérola disse...

Vim de deixar um beijo meu doce de coco rs.
Uma linda noite regada de muita paz.
beijokas.

Naty e Carlos disse...

Carinho é o óleo que lubrifica as engrenagens da vida." Adorei o que li.Parabens
Bjs

Andresa disse...

Amiga, não tinha lido essa fábula
achei magnífica.
parabens
bjs e um otimo dia

Andresa

Irene Moreira disse...

Maravilhoso, como podes nos trazer um conto tão contagiante que nos faz esquecer onde e o que estamos fazendo. Conto que nos leva a sonhar, a rever o que somos, e como nos ensina que uma simples verdade pode nos levar a obstinação e pois a grande vitória e esplendor com o Capricho onde a beleza faz a Fábula.

Muio lindo, muito lindo .... quero mais.
Sinto-me uma criança embalada ao som das histórias que minha mãe contava.
Beijos

Multiolhares disse...

Não conhecia, gostei muito, quantas vestes devem de ser usadas para se chegar á verdade
beijinhos

Bergilde Croce disse...

Mariazita,desta vez passando pra te dar um presente-1 prêmio para divulgar ainda mais seu belíssimo blogVem pegar no www.belliricordi.blogspot.com

Maria João disse...

Mariazita

Assim a verdade, conseguisse entrar agora nos "palácios" deste país. Mas acho que até mesmo ela, apesar de ser obstinada e caprichosa, se cansou de tanta falsidade.

Um beijinho e desculpa a demora....

Canduxa disse...

Minha queridinha,

linda esta fábula, sobretudo pela verdade que ela encerra.
Quando nos apresentamos puros e verdadeiros nem sempre somos aceites...temos de nos mascarar para conseguirmos atingir os nossos objectivos.
É pena que assim seja....mas é a realidade.

Meu abraço apertadinho e já cheio de saudades

Ana Lucia disse...

lindo blog! Adorei! Parabens!!!

lis disse...

Gostei de vir aqui em outro cantinho seu , cheia de contos pra encantar!
e essa fábula é curiosa porque exalta a beleza que pode abrir portas,mesmo que seja só fantasia.
A fábula é uma narrativa gostosa de ler , e tráz alguma lição.As crianças é sempre um bom .
abraços

Silvana Nunes .'. disse...

BOM DIA.
Desculpe a demora em responder, mas estou com meus filhos e genro aqui em casa desde terça-feira e tenho de entrar na fila para usar o computador (rs). Logo voltarei com mais calma, pois adoro histórias e lendas.
Obrigada pela visita.Eles vão embora amanhã cedinho e a minha filha está querendo sentar aqui para digitar uma prova.
Beijo grande.

Táxi Pluvioso disse...

Ó misterioso oriente, de homens com nome de terrorista, se a história decorresse em Portugal, Deus criou a mulher, criou tetas, rabos e pernas... nós somos mais terra a terra :-)))))))

BEL disse...

è simplestemte maravilhosa esta fábula

beijos

bel

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Cara amiga.

Lindas palavras.
Plenas de lições, escritas de modo simples, terno e verdadeiro.

Palavras assim ficam eternizadas em nossas vidas,
e ficam guardadas na máquina digital das nossos pensamentos.

Uma semana de paz para ti.

poetaeusou . . . disse...

*
proscrita , verdade . . .
,
conchinhas, deixo,
,
*

Luis disse...

Minha Querida Amiga Mariazita,
Linda lenda cujo texto foi muito bem apresentado e com muita graça- Como moral da história podemos considerar: "A Verdade vence tudo"! Pelo menos assim penso!
Um beijinho amigo.

Desnuda disse...

Maravilhosaaaaaaaaaaaaaaaaa você, Mariazita! Sem nenhuma pretensão...Desnuda colocou um paninho de disfarce rsrsrs...O que tirou uns pontinhos da íntegra Verdade ( necessários, creio por ser bem comportada rsrs). A intenção foi esta...De forma mais medíocre, tosca, simples, mas sincera. E limitado ao alcance de algumas observações do que vê, é e sente...E você nunca me julgou mal pelas vestes ou por algumas coisas que escrevo...Nem todos são assim, Mariazita! Grata e muito orgulhosa de você. Sua admiradora, sempre!



Beijos com carinho e respeito.

JADY*ALVES disse...

Que linda fábula amiga, adorei! Deve ter sido bem assim que surgiram os contos e fábulas que a todos encantam.
Amei a música que coisa mais linda e que escolha feliz.

Carinhoso beijito da tua amiga Jady

Pérola disse...

Boa noite minha linda.
Saudades de ti minha bela.
Um beijo grande,do tamanho desse mundão de Deus.

Silvana Nunes .'. disse...

É verdade. Quando Deus criou a mulher, criou também a fantasia. Concordo.
Gostei dafábula.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa noite para você.
Saudações Florestais !

Juba disse...

Quando Deus criou a mulher, arranjou um data de problemas para os homens.
Eu que o diga...

Pernas são canelas, mas eu não podia passar sem elas...

jinhos Mariazita

Farofa de Batata =] disse...

Tá rolando sorteio no meu blog: http://farofadbatata.blogspot.com/2010/02/2-sorteio-farofa-de-batata-e-miss-sugar.html

Participe ^^

Miquiliss
Bru

Pérola disse...

Tudo aqui é um encanto.
Delícia de voltar.
Um lindo dia e um beijo grande.

Ana Lucia disse...

obrigado pela visita ao nectar do ser, seu blog e lindo e eu adoro as historias vc deve gostar do livro mulheres que correm com lobos tem tudo a ver com vc, porque vc e uma otima contadora de historias!

Beijo e sucesso sempre!

Poseidón disse...

Querida amiga MARIAZITA,

uma historia bem bonita e contada com seu encanto.

Parabens amiga!

Vim de deixar um abraço e beijo em este dia de descanso laboral.

"Quando Deus criou a mulher também criou a Obstinação."

isso e tantas outras coisas mais tb..
beijos, besos, bisous

Meg disse...

Uma Parábola perfeita!
toda a linguagem metafórica revela a mais pura das realidades, sob a capa da escrita num tropo!

parabéns pela sensibilidade inteligente!
abraço Meg

Zé do Cão disse...

Mariazita

Com que então aí em casa todos vestem de verde e verde é esperança.
Estás dispensada de passar pelo blogue do leão com cabelo grande.
Eu te desculpo. Razões óbvias evidentemente e facilmente compreensivas. É o que faz tocar dois instrumentos. Foi lapso...minha amiga, foi lapso. com a amizade
jinhos

Sara disse...

Mais uma linda fábula com a qual podiamos todos aprender. Bjs

joyce medeiros disse...

esse conto é lindo mas também mostra o preconceito pois a verdade só não entrou no castelo porque ela era pobre e só podia entrar quem era rico mas mesmo assim esse conto é lindo bjsssssss