quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

LENDA DO XÁ DE SAMARKANDA

Em tempos longínquos houve, em Samarkanda, um Xá, que ficou conhecido pela sua bondade e sentido de justiça.
Um dia, resolvendo viajar, saiu da sua cidade, à data capital do Turquestão, acompanhado do seu fiel criado.

Naqueles tempos as viagens eram demoradas e cansativas, por isso o Xá resolveu fazer uma paragem.
Depois de devidamente acomodados na estalagem, disse para o seu criado:
- Vai ao mercado e traz-me fruta fresca.

O criado obedeceu prontamente.
A caminho do mercado apareceu-lhe, de súbito, a Morte, com um ar lívido, disforme, uma boca enorme.
Olhou para o criado com um enorme ar de espanto estampado no rosto.

Aterrorizado, sem fala, o criado, sem pensar em cumprir as ordens de seu amo, retrocedeu de imediato.

Ao vê-lo naquele estado, e sem a fruta, o Xá perguntou o que acontecera, ao que ele respondeu:
- Vi a morte! E ela olhava-me duma maneira assustadora.
Preciso voltar hoje mesmo para Samarkanda, encontrar a minha família. Tens que me deixar sair daqui!
O Xá deixou-o partir, mas ficou a pensar:
– Porque é que a Morte fez isto?
Como desejava mesmo a fruta, pôs de parte os seus pergaminhos, - no fundo, ele era o Xá do Turquestão – e encaminhou-se para o mercado.

Encontrando a Morte, tal como o seu criado a descrevera, perguntou-lhe:
- O que é que o meu criado te fez, ou disse, para o assustares daquela maneira, que o fez fugir sem sequer me levar a fruta?
A Morte respondeu:
- Eu não lhe disse nada! Apenas me admirei de o ver aqui, esta manhã.
É que eu tinha um encontro marcado com ele para esta noite, em Samarkanda.
É para lá que vou já de seguida.

Esta é uma lenda que, a meu ver, transmite esta mensagem:
- NINGUÉM FOGE AO SEU DESTINO

SamarKanda é uma cidade do UZBEQUISTÃO,
ex-república soviética da Ásia Central.


No século VII Samarkanda tornou-se um ponto de escala na Rota da Seda. Aqui se encontravam algumas das principais etapas da Rota da Seda



terça-feira, 27 de Outubro de 2009

LENDA DE S.VICENTE

LENDA DE S.VICENTE

No Brasão d’Armas que se apresenta na bandeira municipal de Lisboa, encontra-se, ao centro, um barco negro, rematado, à popa e à proa, por dois corvos.



Esta figura foi mandada colocar lá por D.Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, depois da tomada de Lisboa, cidade que dedicou a S.Vicente.
Pensa-se que o significado dessa figura esteja ligado à lenda de S.Vicente.
Esta lenda remonta a quase um milénio, evocando os primeiros tempos da implantação do cristianismo na Península Ibérica, à data sob o domínio de Roma; seguiu-se a ocupação árabe, e, por fim, a Reconquista cristã.

Segundo a «crónica de D. Afonso Henriques», de Duarte Galvão, Vicente terá nascido em Huesca, nos Pirinéus.
Novo ainda foi enviado para Espanha pelo Papa; tornou-se acólito do bispo de Valência, distinguindo-se como brilhante orador.
Estava-se nos tempos do imperador Dioclesiano (284-305 d.C.), que moveu ferozes perseguições aos cristãos. O seu agente para a Península Ibérica era Daciano.
Tomando conhecimento da notoriedade de Vicente, Daciano ordenou que o levassem á sua presença, exigindo explicações pela pregação subversiva que fazia, querendo obrigá-lo a renunciar à fé cristã.
Vicente não se deixou intimidar; ao contrário, louvou Cristo com grande fervor e eloquência, perante o olhar atónito do romano.
Daciano ordenou que o torturassem repetidas vezes, mas Vicente acabou por morrer sem nunca renunciar à sua fé.
O romano vociferou: «Se não o venci em vida, morto o vencerei e desfarei». E mandou que o seu corpo fosse despejado num campo, onde ficou à mercê dos animais selvagens.
O corpo de Vicente não chegou a ser profanado porque um corvo o defendeu, impedindo as feras de se aproximarem.
Ao ter conhecimento do facto, Daciano, furioso, mandou que atassem o cadáver a uma pedra e o deitassem ao mar, para que lá se desfizesse. As suas ordens foram cumpridas.
Mas, por milagre, o corpo de Vicente voltou de novo a terra. Foi recolhido por cristãos que lhe deram sepultura cristã, tendo-lhe sido atribuídos, posteriormente, vários milagres.
O culto de S.Vicente espalhou-se então pela Europa, especialmente na Península Ibérica.


Representação de S. Vicente, com narrativa visual dos episódios principais.

Os conquistadores mouros, quando chegaram, destruíram todos os templos cristãos, convertendo alguns em mesquitas, e queimaram os ossos dos mártires.
Perante a iminência da sua chegada a Valência, os cristãos que zelavam a sepultura de S.Vicente, fugiram levando as relíquias do santo.

No Cabo de S.Vicente, no Algarve, mesmo à beira da escarpa, existe uma capela que foi dedicada a Santa Catarina. No lado oposto encontram-se as ruínas da antiquíssima Igreja do Corvo, dedicada a S.Vicente.
Supõe-se que lá foram depositados os restos mortais do santo, que ficaram a ser guardados pelos cristãos que os haviam trazido de Valência.
Um dia chegou ali um cavaleiro Mouro, de nome Albofacem, natural do reino de Fez, que morava “naquela terra dos Algarves”.
Encontrando os homens a guardar o corpo, matou-os, deixando o corpo.
Afonso Henriques, depois de conquistar Lisboa e estabilizar as fronteiras no Rio Tejo, enviou uns homens numa barcaça ao Algarve, à data ainda território inimigo, a fim de resgatar as relíquias do santo.
Chegados lá desembarcaram, e, orando com fervor, pediram a Deus que lhes mostrasse o local onde se encontravam os restos mortais do glorioso mártir.
Começando a escavar encontraram o corpo. Colocando-o no barco regressaram a Lisboa sem qualquer sobressalto, visto que até o mar se acalmava à sua passagem.
Durante a viagem a barca que trazia os restos mortais do santo foi sempre acompanhada por um corvo, que imediatamente foi relacionado com o corvo que o protegera ainda no tempo dos romanos.
Chegado o féretro a Lisboa, D.Afonso Henriques ficou muito comovido, “louvando muito ao Senhor Deos”, e ordenando que o sepultassem na Sé, onde o corvo continuou a velar o santo e «ali foi visto por muitos tempos»

O brasão tem dois corvos. Se só um acompanhou Vicente na sua última viagem, donde virá o outro? Parece não haver resposta para isso; o que é certo é que, popularmente, começou a constar que dois corvos, e não apenas um, acompanharam a barcaça.
Seja qual for a explicação que se dê, é indiferente, porque se trata apenas de lenda.
Entretanto há várias terras a disputar o corpo de S.Vicente: há relíquias do santo em Castres, Cremona e Bari, pelo menos.

Hoje, S.Vicente é padroeiro secundário de Lisboa, porque, entretanto, apareceu o casamenteiro Santo António.

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

LENDA DA FIGUEIRA DA FOZ

A FIGUEIRA (NA FOZ)



A bela cidade de Figueira da Foz, minha terra natal, possui uma das mais bonitas praias portuguesas, conhecida como “Praia da Claridade”.
Penso que poucas pessoas saberão de onde lhe vem o bonito nome de FIGUEIRA DA FOZ.
De pequenina ouvi contar a sua história, que teria começado por ser Figueira NA Foz. Mas o melhor será relatar aquilo de que me lembro:
Conta uma velha lenda que no sopé da Serra da Boa Viagem, que fica muito próxima da cidade, existia um castelo onde vivia um rei, viúvo, e sua filha, Nahida, para além de toda a corte.
Do castelo via-se o mar e a serra, e diziam os “antigos” que, a sul e a nascente, havia um belo rio e uma enorme planície verdejante.
A rainha, que o rei amara perdidamente, morrera ao dar à luz a sua única filha, Nahida. O rei ficara de tal modo transtornado com a sua morte que impôs uma lei que expulsava do castelo todas as famílias que tivessem filhos varões com menos de 20 anos, assim como quem os viesse a ter até 20 anos depois do nascimento de Nahida.
Pretendia o rei, com esta medida, evitar que sua filha viesse a morrer de parto como acontecera com a mãe, a sua idolatrada esposa.
Queria, pois, que a filha, para quem transferira todo o afecto e amor que tivera por sua esposa, vivesse muitos anos, para o que deveria ser casta.
Deste modo a princesinha não poderia conhecer nem brincar com qualquer criança do sexo oposto.
A sua melhor amiga, da mesma idade, Zahra, era a filha mais nova dum rico fidalgo por quem o rei nutria especial simpatia e confiança.
Entre as duas crianças havia uma enorme amizade e ternura.
A vida ida decorrendo normalmente até que uma manhã Nahida foi acordada subitamente pela sua ama que, aflita, lhe contou que seu pai mandara expulsar do castelo toda a família de Zahra.
Durante dois anos a princesa manteve-se presa dum profundo desgosto, que a fazia chorar pela perda da amiga e da crueldade do pai.
Certo dia a princesa arquitectou um plano para fugir do castelo. Esperou pela noitinha e, enganando a vigilância dos guardas, caminhou em direcção ao rio, cuja água brilhava ao luar.
A uma distância razoável do castelo avistou uma árvore frondosa, para os lados da foz do rio. Aproximando-se, viu, escondida entre altos juncos e alguns salgueiros, uma cabana. Encaminhando-se, receosa mas cheia de curiosidade, reparou num pequeno barco ancorado junto à entrada da cabana.
No silêncio reinante pareceu-lhe perceber o som de uma respiração compassada, como de alguém que estivesse dormindo...
Avançando sem ruído, foi entrando, deparando-se, primeiro, com remos, redes e bóias suspensas dos ramos de um salgueiro. A um canto da pequena cabana encontrava-se um catre vazio, coberto por tecido limpo e renda fina. No chão, a seu lado, dormia tranquilamente um robusto cão, de pêlo cuidado.
Tão silenciosa como entrara saiu da cabana e, desistindo de fugir sem descobrir aquele mistério, voltou ao castelo.
No dia seguinte a velha ama contou à princesa que à volta do castelo rondava um bonito e manso cão que parecia trazer amarrado à coleira um pequeno objecto.
Na noite desse dia a princesinha voltou de novo à cabana dos salgueiros.
Dentro da cabana, com todo o cuidado retirou da coleira do cão um pequeno invólucro de cartão que continha dentro um manuscrito.
Surpreendida, desenrolou-o e leu-o com os olhos rasos de lágrimas.
Era uma mensagem da sua companheira de infância que fora expulsa por seu pai.
Dizia-lhe que, se a quisesse ver, fosse junto à figueira, perto da foz do rio, pois que era debaixo dessa árvore que dormia quase todas as noites de verão, por se sentir ali mais fresca e segura.
Nahida acabara de ler o manuscrito que lhe era dirigido. Olhou em direcção à figueira e começou a correr como uma louca em direcção á frondosa fárvore que ficava perto da foz do rio
Ali chegada, depois de se abraçarem e fazerem amor, juraram nunca mais se separarem.
O que acontecera foi que, ao nascer Samuel, lhe fora dado o nome de Zahra, passando a andar vestido de menina. Os pais tentaram evitar, daquela forma , serem desterrados para longe do castelo.
Só que, certa noite de verão, o rei surpreendeu, nus, sua filha e Samuel, beijando-se apaixonadamente,



o que o levou a expulsar do castelo a família de Zahra/Samuel.
E foi por isso que Nahida, depois de ler o manuscrito, correu para junto de Samuel, encontrando-o junto da frondosa figueira que ficava perto da foz do rio
Pouco tempo depois, providencialmente, o rei morreu.
Meses depois ambos resolveram mandar erigir junto à velha figueira um palácio de verão para assinalar para sempre o seu reencontro. À volta desse palácio à beira rio foi surgindo, ao longo dos tempos, uma bonita povoação de onde se avistava, a norte, no coração de Buarcos, o castelo do reino do qual ainda hoje restam vestígios.
A essa nova povoação, virada a sul do castelo, o povo passou a chamar Figueira da Foz, em homenagem àquele atribulado e persistente amor.

Mariazita, Julho de 2007.
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Figueira da Foz em 1888:

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A PARTE MAIS IMPORTANTE DO CORPO

Quando eu era muito jovem, a minha mãe perguntou-me qual era a parte mais importante do corpo.

Eu achava que o som era muito importante para nós, seres humanos; então eu disse:
-As orelhas, mãe.



- Não, disse ela. Muitas pessoas são surdas...
Mas continua pensando sobre este assunto. Noutra oportunidade eu volto a perguntar-te.

Algum tempo se passou até que a minha mãe perguntou outra vez.

Eu tinha pensado bastante e imaginava ter encontrado a resposta correcta.
Assim, desta vez eu disse-lhe:
- Mãe, a visão é muito importante para todos; então devem ser os nossos olhos.


Eu tinha errado outra vez!

Ela olhou-me e disse:
- Estás aprendendo depressa, mas a resposta ainda não está correta, porque há muitas pessoas que são cegas...

Continuei a minha busca por conhecimento ao longo do tempo. A minha mãe voltou ao assunto várias vezes, mas a cada resposta minha, ela retrucava:

- Não...Mas tu estás ficando mais esperta a cada ano.

Então, um dia, o meu avô morreu. Todos estavam tristes. Todos choravam. Até mesmo o meu pai, que eu nunca tinha visto chorar. A minha mãe olhou para mim quando fui dar o meu adeus ao vovô, e perguntou-me:

- Então, já sabes qual é a parte do corpo mais importante?

Fiquei um tanto chocada por ela me fazer a pergunta justamente naquele momento. Sempre achei que era apenas um jogo entre nós duas.

- Hoje é o dia em que necessitas aprender esta importante lição, disse ela.

Olhou de um jeito que só uma mãe pode fazer, e falou:

- Minha querida, a parte do corpo mais importante são os teus ombros.



Intrigada, perduntei:
- Porque eles sustentam a minha cabeça?

- Não, respondeu ela, é porque podem apoiar a cabeça de um amigo ou de alguém amado quando eles choram.
Todos precisam de um ombro para chorar em algum momento da sua vida.

Naquela ocasião eu descobri qual a parte do corpo mais importante. Descobri, também, a importância de ser "simpático" com a dor dos outros.
Porque, naquela hora, quem precisou de um ombro fui eu.



- Espero que tenhas bastante amor e amigos, e que os teus ombros estejam sempre à disposição quando alguém precisar – disse minha mãe.


Sempre que recordo este facto, lembro-me da seguinte citação:
“As pessoas esquecerão o que disseste... esquecerão o que fizeste… mas nunca esquecerão o que as fizeste sentir”


“Os bons amigos são como estrelas... nem sempre as podemos ver, mas sabemos que sempre estão lá.”

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

UM GRANDE AMOR

Stella estava sentada na sala. Era inverno. Mas o maior frio que ela sentia vinha de dentro. Da alma.

Jamais ela sentira tanto medo da tempestade, dos ventos gelados e da chuva. É que agora estava sozinha.
Seu querido David havia morrido há 3 meses. Ela jamais poderia imaginar que sentiria tanto a sua falta.

Desde que o diagnóstico de câncer terminal chegara, ela se preparara para a morte dele.
Ele também. Homem organizado, deixara toda a papelada em ordem.
Dinheiro não lhe faltaria para as necessidades. Ele pensara em tudo.
Mas a ausência dele era terrível.

Ao terceiro toque da campainha, ela se levantou para atender a porta.
Antes, olhou pela janela, um pouco desconfiada. Afinal, havia tantos assaltos…

Era um rapaz com uma caixa grande. Viu o carro de entregas estacionado em frente ao portão.
Abriu a porta e o ar gélido entrou, tomando conta da sala inteira.

É a senhora Araújo? -perguntou o funcionário.

Ao sinal afirmativo de Stella, ele pediu licença para entrar e colocou a caixa no meio da sala.
Antes que pudesse indagar qualquer coisa, o entregador, jovial, foi explicando:

A senhora nos desculpe. Era para entregar somente na véspera do Natal. Porém, hoje é o último dia de expediente no canil. Espero que a senhora não se importe.

Entregou-lhe um envelope, abriu a encomenda e retirou o presente: um filhote de cão Labrador.



A carta explica tudo - continuou o rapaz.
O cão foi comprado em Julho, quando a mãe dele estava prenhe.
Ele tem seis semanas de idade e é um cão doméstico.
A senhora espere um pouco que vou buscar o restante da encomenda.

Largou o cãozinho e ele foi se sentar aos pés de Stella, fungando feliz e olhando para ela.

O restante da encomenda era uma caixa enorme de alimentos para cães, uma correia e um livro “Como cuidar de seu cão Labrador”.

Stella continuava parada, estática. Acabara de reconhecer no envelope a letra de David.

Quando o entregador se foi, ela caminhou até à sua poltrona. Tremia toda.
O cãozinho ficou ali, olhando-a ainda com seus olhos castanhos, à espera de um afago.
A carta não era longa mas repassada de carinho.
David a escrevera antes de morrer e a deixara com o proprietário do canil. Era seu último presente de Natal.
Ele havia comprado o animal para lhe fazer companhia. A carta era cheia de amor e lhe dava ainda conselhos e incentivo para que fosse forte, até ao dia em que voltariam a ficar juntos, na espiritualidade.

Ela olhou para o cãozinho e estendeu a mão para o apanhar. Segurou-o nos braços. Pensou que fosse pesado, mas tinha o peso e tamanho da almofada do sofá.
O animalzinho de pelos castanhos lhe lambeu o queixo e se aninhou em seu pescoço.
Ela chorou de saudade. Ele ficou ali, quietinho.

- Então, criaturinha, aqui estamos você e eu.
O cachorrinho fungou, concordando, pondo sua língua rosada para fora.

Stella sorriu.
- Então, vamos para a cozinha fazer uma sopa?
O cãozinho latiu e abanou a cauda, como se tivesse entendido exactamente o sentido de cada uma das palavras.
E acompanhou Stella até a cozinha.

* * *

Na sua imensa sabedoria, Deus criou os animais para auxiliar o homem em suas tarefas, tanto quanto para lhe prover algumas necessidades.
Também para servir de amparo aos que andam sós, aos famintos de afecto.
Tornam-se muitas dessas criaturas, em sua missão de servirem ao homem, excelentes zeladores de vidas humanas.
Ao homem cabe amparar-lhes as vidas e retribuir-lhes com cuidados a atenção e devotamento.
São também eles a manifestação do amor de Deus na Terra.


Do livro “Histórias para o coração” capítulo “Entrega posterior”, de Alice Gray.



Alice Gray é uma conferencista de grande talento.
As suas palestras, ao longo de mais de 20 anos, têm sido ilustradas como histórias interessantes e de grande impacto.

É a organizadora da série Histórias Para o Coração, que já ultrapassou a marca de 5 milhões de exemplares publicados em seu país de origem (EUA).

Outros livros já publicados:
Histórias Para o Coração 2 e 3.
Histórias Para o Coração da Mulher,
Histórias para o Coração do Homem,
Histórias para o coração da Mãe,
Histórias Para o Coração do Professor,
Histórias para corações românticos,
Listas para aquecer o coração.

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

HABEAS-PINHO

Em 1955, em Campina Grande, na Paraíba, um grupo de boémios fazia serenata numa madrugada do mês de Junho,



quando chegou a polícia e apreendeu o violão.

Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, então recentemente saído da Faculdade, e que também apreciava uma boa seresta.

Ele peticionou em Juízo para que fosse liberado o violão.
Aquele pedido ficou conhecido como "Habeas-Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praias no Nordeste.

Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima foi eleito Deputado Estadual, Prefeito de Campina Grande, Senador da República, Governador do Estado e Deputado Federal.

Eis a famosa petição HABEAS-PINHO

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca:

O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola,
É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão,
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade,
Ao crime ele nunca se mistura,
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas e que povoam a vida
Sufocando suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém seu destino se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo pelo Amor da noite,
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito,
É crime, porventura, o infeliz
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando ali as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento,
Juntando esta petição aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.
Ronaldo Cunha Lima, advogado.




O juiz Arthur Moura, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:

"Para que eu não carregue remorso no coração,
Determino que seja entregue ao seu dono,
Desde logo, o malfadado violão! “

Recebo a Petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo em sombra imerso
È desumana e vil destruição
De tudo, que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida transviada
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.


quarta-feira, 13 de Maio de 2009

UMA HISTÓRIA DE SIMPLICIDADE

Existe uma história de simplicidade linda, que gostaria de contar.
Uma lenda, um acalento dito antes do sonho tocar os olhos de qualquer pessoa.

Não sei se é verdade...e não me importo com isso. Não precisa ser.

Há muito, muito tempo, depois do mundo ser criado e da vida o completar, houve num dia, numa tarde de céu azul e calor ameno, um encontro entre Deus e um de seus incontáveis anjos.
Acredita?

Deus estava sentado, calado, sob a sombra de um pé de jabuticaba.
Lentamente, sem pressa, Deus erguia suas mãos e colhia uma ou outra fruta.

Saboreava sua criação negra e adocicada. Fechava os olhos e pensava.
Permitia-se um sorriso piedoso. Mantinha seu olhar complacente.
Foi então que das nuvens um de seus muitos arcanjos desceu e veio em sua direção.

Já ouviu a voz de um anjo? É como o canto de mil baleias. É como o pranto de todas as crianças do mundo. É como o sussurro da brisa.

Ele tinha asas lindas....brancas, imaculadas.

Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

"Senhor...visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos. Estive no sul, no norte, no leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas crianças humanas. E, por ter visto, vim até o Senhor....para tentar entender.
Porquê? Porquê cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas um asa?
Nós, anjos, temos duas...podemos ir até o amor que o Senhor representa sempre que desejarmos. Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos.
Mas os humanos com sua única asa não podem voar. Não podem voar com apenas uma asa..."

Deus na brandura dos gestos, respondeu pacientemente ao seu anjo:


"Sim...eu sei disso. Sei que fiz os humanos com apenas uma asa..."

Intrigado com a consciência absoluta de seu Senhor, o anjo queria entender e perguntou:

"Mas por que o Senhor deu aos homens apenas uma asa quando são necessárias duas asas para poder voar....para poder ser livre?"

Conhecedor que era de todas as respostas Deus não teve pressa para falar.

Comeu outra jabuticaba, obscura e suave.
Então respondeu...


"Eles podem voar sim meu anjo. Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês meus arcanjos.... Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas... Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu....

Mas os humanos....os humanos, com sua única asa, precisarão sempre dar as mãos para alguém a fim de terem suas duas asas. Cada um deles tem na verdade um par de asas....uma outra asa em algum lugar do mundo que completa o par. Assim eles aprenderão a respeitarem-se, pois, ao quebrar a única asa de outra pessoa, podem estar acabando com as suas próprias chances de voar.

Assim meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa...aprenderão que somente permitindo-se amar eles poderão voar. Tocando a mão de outra pessoa em um abraço correto e afetuoso eles poderão encontrar a asa que lhes falta...e poderão finalmente voar. Somente através do amor irão chegar até onde estou...assim como você meu anjo. E eles nunca....nunca estarão sozinhos quando forem voar."

Deus silenciou em seu sorriso.
O anjo compreendeu o que não precisava ser dito.

E assim sendo, no fim desse conto, espero que um dia você encontre a sua outra asa.
Para finalmente poder voar.

(Moacir Novaes )

Moacir Novaes é médico endocrinologista, e colabora, com artigos sobre medicina, no jornal Diário de Pernambuco