domingo, 6 de Janeiro de 2013

A LENDA DE ARTABAN

ARTABAN, O QUARTO REI MAGO
(Baseado no conto de Henry Van Dyke)


Não vou sequer referir o quanto é conhecida de todos a história dos três Reis Magos, cuja chegada ao Presépio onde se encontrava o Menino Jesus recém-nascido, é celebrada no dia 6 de Janeiro. Há, no entanto, uma lenda, talvez menos conhecida, que refere a existência de um quarto Rei Mago, de nome Artaban, que passou anos da sua vida no encalço de Jesus, intuito que apenas veio a concretizar quando Ele se encontrava na Cruz.

Tal como aconteceu com os conhecidos três Reis Magos, também Artaban viu a estrela que anunciava o nascimento do Menino Deus. Além de mago era astrónomo e médico, natural da Pérsia, e um homem muito rico que vivia num palacete rodeado de belos jardins de árvores exóticas e flores raras.
Desfez-se de parte dos seus haveres e, preparando o seu melhor cavalo, partiu de madrugada para, no dia marcado, se encontrar com os seus amigos Gaspar, Melchior e Baltazar, que, de acordo com o combinado, já se encontravam a caminho.
 
Levava consigo três jóias para oferecer ao Messias: uma pérola, um rubi e uma safira.
Precisava cavalgar sem parar - já estava escurecendo e ainda faltavam mais ou menos três horas de viagem para chegar ao local do encontro. Teria que estar lá antes da meia-noite, pois a partir dessa hora os três Reis Magos não esperariam mais por ele.
De súbito, numa curva da estrada, o cavalo assustou-se com algo que viu sob o reflexo da lua: era um homem que já apresentava o frio da morte.
Artaban, depois de o examinar, deu-o como morto, e, com o coração triste, voltou-se para partir. Mas, ao levantar-se, sentiu a mão do homem prendendo-lhe o manto.
Indeciso, pois já se fazia tarde para o encontro com os seus amigos – era preciso seguir a estrela! – decidiu socorrer o hebreu, tratando-o por várias horas, até ele se recuperar. Por fim, deixando com ele as suas provisões e curativos, retomou o seu caminho.
Quando chegou ao lugar combinado, não encontrou mais os seus companheiros. Nem sinal da caravana de camelos. Então, num monte de pedras, ele achou um pergaminho com a seguinte mensagem:
“Artaban, não pudemos mais esperar, seguimos ao encontro do Messias. Aguardamos que nos sigas através do deserto.”
Artaban entrou em desespero... Como poderia atravessar o hostil deserto sem ter o que comer e com um cavalo cansado? Assim, regressou à Babilónia, vendeu a sua pedra de safira, e comprou camelos e provisões suficientes para a longa viagem. Continuou a sua jornada pelo deserto e finalmente chegou a Belém, mas encontrou a vila deserta.
Pela porta entreaberta duma humilde casa ouviu a voz duma mulher que cantava suavemente. Entrou e encontrou uma jovem mãe acalentando o seu filhinho, que lhe falou nos três reis magos que haviam passado pela vila e tinham seguido, guiados por uma estrela, para o lugar onde encontrariam José de Nazaré, sua esposa Maria e o bebé Jesus.
O bebé daquela mulher olhou para Artaban, sorriu e estendeu os bracinhos para ele. Foi quando se ouviram gritos e grande correria lá fora, nas ruas. Os soldados de Herodes estavam matando as criancinhas. A jovem mãe, branca de terror, escondeu-se no canto mais escuro da casa, cobrindo o menino com o seu manto para que ele não chorasse e fosse descoberto pelos soldados.
Artaban colocou-se no vão da porta, impedindo a entrada dos soldados. Um oficial aproximou-se para afastá-lo; o mago, aparentado uma falsa calma, disse-lhe que estava sozinho, esperando a oportunidade para oferecer uma jóia àquele que deixasse a casa em paz; e, dizendo isto, mostrou-lhe o rubi brilhando na palma da mão.
Com os olhos ardendo de cobiça o oficial arrebatou a jóia, gritando para os soldados que ali não havia nenhuma criança. Artaban, olhando para o céu, pediu que lhe fosse perdoado o seu pecado, já que dissera uma mentira. Assim, das três dádivas que trouxera para oferecer ao Messias, já se desfizera de duas. Começava a achar-se indigno de algum dia contemplar a face do Menino Deus.
Mas continuou a sua jornada. Passou por lugares onde a fome era grande; cidades onde os enfermos morriam na miséria; visitou oprimidos nas cadeias, e escravos nos mercados. Num mundo cheio de angústia e sofrimento não encontrou ninguém para adorar, mas muitos desgraçados para ajudar.
E os anos passaram, 33 anos… Os cabelos de Artaban já estavam brancos. Velho, cansado, e pronto para morrer, ele ainda continuava à procura do Rei de Israel.
Estava de novo em Jerusalém, por onde havia passado muitas vezes na esperança de encontrar a Sagrada Família. A população estava reunida na cidade santa para a festa da Páscoa do Senhor. Vendo uma grande agitação, Artaban perguntou, a um grupo de pessoas, o que se passava e para onde se dirigiam.
- Vamos para o Gólgota. Dois ladrões vão ser crucificados e com eles um homem chamado Jesus de Nazaré, que dizem ter feito coisas maravilhosas entre o povo; mas os sacerdotes acusam-no de ter dito ser o Filho de Deus, e condenaram-no à morte.
Artaban achou que era chegada a altura de oferecer a sua pérola para salvar Jesus da morte. Ao seguir a multidão viu um grupo de soldados arrastando uma jovem toda ensanguentada que, conseguindo libertar-se, se ajoelhou perante ele, implorando auxílio. Disse-lhe que seu pai era mercador na Pérsia, conterrâneo de Artaban) mas falecera cheio de dívidas, e que agora aqueles homens iam vendê-la como escrava para saldar os débitos de seu pai.
Artaban tremeu perante o conflito entre a Fé, a Esperança e o impulso do Amor. Só lhe restava a preciosa pérola. O que fazer? Tirou a pérola do seu alforge e colocou-a na mão da jovem, dizendo-lhe que pagasse aos seus algozes. Assim ela foi libertada.
Logo o dia se transformou em noite profunda e um forte tremor de terra abalou a cidade. Artaban, na companhia da jovem libertada, foi atingido na cabeça por uma pedra. Com o sangue a escorrer do ferimento, descansou a cabeça no colo da jovem; preparando-se para morrer pediu perdão por não adorar o Messias e lhe ofertar o presente que trouxera de tão longe.
Durante 33 anos ele havia procurado Jesus, mas nunca vira a face Dele! Então ouviu uma suave voz vinda dos céus:
- Artaban! Sempre que viste um enfermo, prestaste-lhe socorro ; sempre que viste alguém com fome, deste-lhe de comer; sempre que encontraste alguém com sede, deste-lhe de beber; sempre que viste alguém acusado injustamente, deste-lhe a liberdade. Em verdade, quando fizeste tudo isso, foi a Mim que o fizeste!
Uma alegria enorme iluminou o seu rosto. Com um profundo suspiro, terminou a sua longa viagem de 33 anos. O quarto mago, finalmente, encontrara o seu Rei!


Que todos consigamos descobrir dentro de nós a existência de Artaban, aquele quarto Rei Mago que representa o verdadeiro espírito de solidariedade.


HENRY JACKSON VAN DYKE
1852-1933

Henry Van Dyke foi um diplomata, pastor e escritor americano.
Deixou uma vasta obra literária, especialmente no campo da Poesia.

segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

UM CONTO DE NATAL


Um conto de Natal | Muziboo
 
(Ligue o som, acima) 
 
CONTO DE NATAL
 

Lá no céu, no seu cantinho, um anjinho pequenino
Passava dias e dias olhando para as estrelas.
Que importava estar a vê-las até horas tão tardias
Se tinha tempo… e as estrelas, luzes que cintilam belas
Fazem sonhos e magias?
Às vezes, anjos mais velhos, vinham dar-lhe os seus conselhos:
“Vai deitar-te! Aí ao frio não podes permanecer!
Não fica bem a um menino das horas sempre esquecer!”
Mas ele era um sonhador… Pensava:
 “Lá bem ao fundo não haverá qualquer mundo,
Decerto algo diferente mas onde haja também Gente?”
Que bom seria ir espreitar ,com suas asas voar,
Tão depressa, tão ligeiro,
Para depois regressar com sonhos desse roteiro!
Às vezes, Nosso Senhor, por alturas do Natal,
Passava por ele e ia tão depressa, tal e qual como ele idealizava.
(Descia… e não demorava.)
Aonde iria, afinal? - indagava-se o anjinho
E, à noite, em sua cama pensava nisso sozinho.
Era a ânsia de saber o que ninguém lhe dizia…
Ir também? Podia ser? De certeza, não podia.
Seus pais não consentiriam uma saída do Céu!
E uma noite, e outra noite, sempre triste, adormeceu.
Mas a Virgem tinha visto, e da treva fez-se luz:
Tendo pena do anjinho triste, pensando, sozinho, tinha contado a Jesus.
E uma noite, da janela, disse-lhe Ela, meigamente:
“Voa até à maior estrela, verás que ficas contente”.
Dormia tudo em sossego. A noite metia medo.
Mas ele lá foi, alegre, embora fosse tão cedo…
Chegando à estrela indicada foi encontrar Jesus Cristo;
Sua carita, pasmada, ao observar tudo isto:
De sacos, uma montanha! Com brinquedos, com comida,
Que coisa tão linda e estranha nunca vira em sua vida!
Eram milhares e milhares, com coisas tão variadas,
que ele passou seus olhares com as palavras paradas!
Disse-lhe então Jesus Cristo, pleno de amor, tão profundo:
“Vamos levar tudo isto a crianças de outro mundo.
Vamos encher corações de alegria e de ternura;
Há outras ocasiões, mas é uma boa altura…
No Natal eles aguardam sempre pela minha visita.
Esta noite irás comigo
Muita gente lá existe; Deixarás de ficar triste. É uma viagem bonita.
Quanto aos teus pais, já lhes disse, ontem falei no assunto sem tu teres dado por isso.
Partamos com alegria!
Esse monte aí ao lado, esse que está aí junto, agarra nele…
e eu levo todos os outros comigo
Comecemos a voar. Anda daí, meu amigo!”
Não podia acreditar, o nosso anjinho, coitado!
Ver mais além sempre quis! Sentir-se assim tão feliz, estaria mesmo acordado?
Mas começou a viagem… Jesus cantava baixinho;
O anjo, de tão contente,  ia ouvindo, caladinho…
Lá foram entre as estrelas, planetas, sempre, sem fim,
e viram coisas tão belas que o anjo pensou assim:
“Haverá alguém no Céu inda mais feliz do que eu?
Que vou aqui com Jesus, em fantástica descida,
Vou dar brinquedos, comida, vou a casas fazer Luz a gentes necessitadas…
De certeza que não há ninguém tão feliz assim!
Que bom é ir até lá! Que alegria tenho em mim!”
Nisto pensando, notou um planeta enorme à frente…
Com árvores, rios e mares, casas onde havia gente…
Jesus disse-lhe: “é a Terra, é este o nosso destino.
Vai dar tudo o que aí levas! Não deixes nenhum menino sem brinquedos ou comida!
É duro viver na treva! Dá-lhes Luz, Amor e Vida!
Por outros lares diferentes fazer o mesmo irei eu.
Depois então voltaremos de madrugada pró Céu”.
E cada um pra seu lado, foi cumprir suas missões…
O anjinho dava, contente, do que tinha, àquela gente,
Enchendo-lhe os corações de alegria e de ternura.
Repartiu até ao fim. Esgotou tudo o que levava.
Mas tanta gente feliz numa noite ele deixava!
Já era quase manhã e ia pró seu destino,
Quando notou, a chorar, e, de frio, a tiritar, uuito infeliz, um menino.
O anjinho olhou para os sacos e estava tudo vazio!
Mas como deixá-lo ali a tremer, cheio de frio?
Teve uma ideia feliz:
Foi buscar uma estrelinha, deu-a então ao menino para aquecer-lhe a casinha.
E ele ficou tão contente!... Mas disse, preocupado:
“Olha que no Céu, talvez alguém tivesse notado…
Leva-a daqui mas põe perto, de modo que ela me aqueça;
Pois se a pões onde me abrigo ainda vão ralhar contigo, não é coisa que se ofereça…
Basta que fique baixinha para que a vejam…ali…
Aquece toda a casinha e vou lembrar-me de ti”.
O anjinho concordou. Depois desapareceu…
Nunca mais ninguém o viu desde que voltou pró Céu.
Mas a tal estrela brilhante que veio dessa ideia sã
Ainda hoje, cintilante, lá está, das outras distante…
- É a ESTRELA DA MANHÃ.
 
(Ao Rui Pedro e Sónia Raquel, meus filhos, que à data em que escrevi este poema em conto, tinham, respectivamente, 12 e 9 anos. Uma dedicação especial ao Rui, que foi com base numa redacção que fez sobre o tema, que eu depois adaptei para verso. Teve uma classificação muito boa e um elogio da professora, e com orgulho veio mostrar-me. Com não menos orgulho fiz então o poema).
Escrito e dito por Joaquim Sustelo
20/12/1987


 
Joaquim Sustelo
 

Joaquim Sustelo nasceu no concelho de Silves, Algarve, em 29 de Julho de 1948, onde fez o Curso Comercial, tendo sido aluno brilhante. Continuou estudando em Faro, fixando-se depois em Lisboa, onde continuou os estudos e ainda reside (Odivelas). É membro da Associação Portuguesa de Poetas, e da AVSPE, Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores. Autor de livros de poemas como “No Silêncio do Tempo”, "Outono da Vida ", "Um Pouco de Sol", "Gracejando em Verso"…etc., é ainda colaborador em várias antologias poéticas.

quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

MUDANÇA DE CASA

Minhas amigas e meus amigos
Este blog, Histórias de Encantar, vai mudar-se para A CASA DA MARIQUINHAS ,
na qual serão publicados os posts daqui a partir do próximo dia 25/11, quinta-feira.

Espero lá as vossas visitas, que antecipadamente agradeço.

E, se quiserem fazer-se seguidores de lá… dar-me-ão um grande prazer, na medida em que este blog vai encerrar as suas portas por tempo indeterminado.

Muito obrigada pela vossa compreensão.

quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

LENDA DE ITAGUAÇÚ

Há muito tempo atrás, antes dos deuses nascerem, lá onde hoje é a praia de Itaguaçú, existia um lindo gramado onde pessoas, bichos e elementos se reuniam para fazer festas, piqueniques, ou simplesmente passear.
Nesse tempo o Gigante ainda não estava adormecido, mas já era o protector da ilha e de todas as pessoas que ali se divertiam.
Um dia foi organizada uma grande festa naquele local, para a qual foram convidadas as pessoas, os bichos e os elementos das matas, das águas e do fogo.
Havia sereias, lobisomens, duendes, silfos, salamandras, vampiros, homens, mulheres, tartarugas, ursos, elefantes marinhos, focas, etc.…
Todos vinham pelo caminho sagrado, chamado de “Caminho das Furnas”, que existia entre o Abraço e o Itaguaçu, passando pelo Bom Abrigo, lá onde o velho sábio fica sentado vendo todo o mundo passar.

Em Itaguaçú, lá no centro do gramado, existia uma grande mesa onde eram colocadas as frutas, verduras, ambrósia, mel, doces…que eram ali servidos para quem estivesse no local.

Tudo isso era preparado e transportado por pessoas especiais ( mulheres grávidas ou jovens virgens) para não macular os alimentos que eram servidos.

Trazia-se em balaios ou em peneiras de taquaras (ripa ou lasca de bambu) e cipós extraídos da mata na primeira lua cheia do verão, e tecido antes que a boca da noite findasse, e eram carregados sobre as suas cabeças para energizar os alimentos.
Mas para esta grande festa, o Tibinga, vulgo Coisa Ruim, Diabo, Demónio, etc., não foi convidado, o que o deixou muito furioso.
Assim que começaram os preparativos para esta grande festa, o Gigante sentou-se ao pé do Cambirela para apreciar o movimento.
Via-se uma mulher grávida trazendo um balaio na cabeça com frutas madurinhas e deliciosas.
Mais adiante via-se um casal de jovens, um indo outro vindo da mesa, onde depositavam as frutas e doces. A rapariga vinha com um balaio sobre a cabeça e o jovem, como já tinha deixado os doces, trazia a sua peneira emborcada sobre a cabeça.

Do seu posto o Gigante viu e riu muito, pois lá no meio do caminha o elefante marinho e as tartarugas erraram o caminho e deram de cara com uma coruja que dali observava tudo.
Acompanhou também os passinhos lentos e curtos do ursinho que tentava chegar à festa e se espantou com o carinho das morsas.
Depois disso resolveu tirar um cochilo e foi deitar-se.
Junto à mesa um negro tocava um orocongo e ao longe ouvia-se o som de uma rabeca.
Aquela música foi como uma canção de embalar para o Gigante, que adormeceu recostado nas montanhas.

Como o Tibinga tinha ficado fula da vida por não ter sido convidado para esta grande festa, e, sabendo que o gigante protetor da ilha dormia, transformou tudo e todos em pedra.

Ao despertar, o Gigante olhou para o gramado e espantou-se ao ver que tudo ali se tinha transformado em pedra; não viu mais os seus amigos: tudo se tinha transformado.
Olhou as tartarugas, o leão marinho e a coruja, totalmente petrificados.
Lá no meio do caminho o pobre ursinho também era pedra; as morsas, que já estavam quase lá, também ficaram petrificadas; a mulher a as crianças também.
- Meu Deus, até o velho sábio? – exclamou o Gigante, tristonho. Tudo e todos viraram pedras, e nunca mais os verei aqui no gramado, não haverá mais alegria neste lugar, e nunca mais falarei com os meus amigos.
O Gigante ficou muito triste, sentou-se ao pé do morro e chorou; chorou muito; chorou tanto que as suas lágrimas encheram toda a região e transformaram tudo em mar.
O Gigante ficou tão triste e desiludido que se deitou para nunca mais se levantar.
E quem olhar para os lados do Cambirela ainda verá o nosso amigo Gigante dormindo.
Para nós ficou a esperança de termos de volta o lindo gramado e também o sorriso alegre do Gigante, que, mesmo adormecido por entre os morros, ainda espalha a sua protecção sobre a ilha e os seus moradores.
E dizem que em noite de lua cheia ainda se ouve o gemido das pedras clamando para voltar à vida.

Baseado na lenda da praia de Itaguaçú.

Itaguaçu é um bairro da cidade brasileira de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina. Está situado na porção continental do município, ao sul, entre os bairros de Coqueiros e Bom Abrigo e a Baía Sul. O nome Itaguaçu é de origem tupi e quer dizer literalmente "Viveiro de Pedras Grandes" ou "Lugar onde há Pedras Grandes". Estas pedras constituem interessantes formações de granito à beira da praia de Itaguaçu e em meio ao mar da Baía Sul, havendo mesmo uma lenda que conta de bruxas que teriam sido petrificadas, dando origem às pedras, uma das quais parece ter um chapéu, e também há um conjunto de 6 pedras que formam um tipo de um círculo com uma sétima pedra no meio (alusão a ritual satânico)…
Existem pequenas praias urbanizadas nas quais alguns bares e restaurantes são especialmente agradáveis pela vista que se descortina, o que faz com que haja um bom movimento. Na praia há um deck de madeira. Infelizmente a balneabilidade destas praias não é recomendável devido à poluição, pois, embora haja rede de esgotos na região, ela não atende a contento, havendo muitas ligações clandestinas às galerias de águas pluviais.

quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

A LENDA DE SHERAZADE E AS MIL E UMA NOITES

Shariman era um poderoso Sultão que reinava em absoluto no Oriente. Possuía um belo palácio em Bagdá e seu irmão chamado Shazaman dominava a China.

Um dia, Shazaman enviou um mensageiro a Bagdá convidando Shariman para uma visita. Shariman, que gostava de viajar e estava com saudades do irmão, prontamente aceitou.

Estava ele no meio do caminho, quando se lembrou de que deixara no palácio o presente que daria ao seu irmão.
Retornou inesperadamente ao palácio e pôde ver um dos súbditos entrando no quarto de sua esposa.
Enfurecido, Shariman apanhou a espada, e, rasgando o véu que guardava a entrada do quarto dela, surpreendeu os dois abraçados. Ordenou aos guardas que levassem o traidor para a prisão e expulsou a rainha de Bagdá para sempre.

Shariman decidiu que nunca mais confiaria em mulher alguma.
Para evitar traições, ele se casaria com uma jovem a cada noite. No dia seguinte, ao nascer do sol, ela iria embora do reino e não poderia mais voltar.
Shariman encarregava o nobre Mustafá, seu Vizir, de escolher suas esposas.
Várias jovens foram levadas; as famílias não podiam negar nada ao Sultão. Muitas porém fugiam, para escapar ao cruel destino. Chegou um dia que Mustafá não encontrou donzela para casar com o Sultão e voltou preocupado para casa.

O Vizir tinha duas lindas filhas: Sherazade e Denizade. Sherazade, a mais velha, além de bela, era instruída nas artes e nas ciências. Havia lido muitos livros e todas as tardes visitava a praça dos contadores de histórias: um lugar onde várias pessoas se encontravam para contarem as suas aventuras e descobertas.

Vendo seu pai infeliz perguntou o motivo de tanta tristeza. Quando o Vizir
Lhe contou o que se passava, Sherazade disse:
- Pai, leve-me ao Sultão; serei sua esposa e terminarei com essa tragédia.

No dia seguinte Sherazade e seu pai foram ao encontro de Shariman. O sultão ficou admirado de sua beleza e casou-se com ela.

Quando chegou o momento esperado Sherazade olhou para o Sultão e disse:
- Deixe-me alegrar seu coração, meu senhor! Permite que lhe conte uma história?
Curioso, Shariman aceitou.
Sherazade, com sua voz melodiosa, começou a contar histórias de aventuras de reis, de viagens fantásticas, de heróis e de mistérios. Contava uma história após a outra, deixando o Sultão maravilhado.

Sem que Shariman percebesse, as horas passaram e o sol nasceu. Sherazade interrompeu uma história na melhor parte e disse:
- Já é de manhã, meu senhor!
O sultão, interessado na história, deixou Sherazade no palácio para mais
uma noite.

E assim Sherazade fez o mesmo naquela noite; contou-lhe mais histórias e deixou a última por terminar. Sempre alegre, ora contava um drama, ora contava uma aventura, às vezes um enigma, outras vezes uma história real.

Procurava sempre a tenda dos contadores em busca de histórias para nunca repetir nenhuma. Todas as noites Sherazade tinha uma história nova para contar ao Sultão. Ela agiu dessa maneira por mil e uma noites seguidas.

A jovem teve tanta dedicação e foi tão carinhosa, que acabou conquistando o coração do Sultão. Na milésima Segunda noite Shariman declarou:
- Não saberia viver sem suas histórias e seu amor, Sherazade.

Sherazade sorriu e abraçou seu esposo. Sherazade e Shariman foram felizes por muitos e muitos anos.

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quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

QUE SAUDADES DO COMPADRE E DA COMADRE!

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente,
à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronómica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. P’ra quê televisão? P’ra quê rua? P’ra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anónimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. P’ra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite…
Que saudade do compadre e da comadre!

José António Oliveira de Resende

Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

José António Oliveira de Resende

terça-feira, 14 de Setembro de 2010

A TRANQUILIDADE DAS OVELHAS

A noite estava escura, céu sem estrelas.
De vez em quando ouvia-se o uivo de um lobo bem longe, misturado com o barulho do vento.
As crianças reunidas na tenda do Mestre Benjamin estavam com medo.

Mestre Benjamim sentiu o medo nos seus olhos.

Foi então que uma delas perguntou:

- Mestre Benjamim, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim!

Mestre Benjamim respondeu:

- Há sim... E ficou quieto.

Veio então a outra pergunta:

- E qual é esse jeito?

- É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam...

- Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?

Mestre Benjamim respondeu:

- Quando, durante a noite, as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo.
Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta.



É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta elas pensam:

Há um pastor que me protege.
Ele me leva aos lugares de grama verde
E sabe onde estão as fontes de águas límpidas.
Uma brisa fresca refresca a minha alma.
Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas.
Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro da morte eu não tenho medo.
A sua mão e o seu cajado me tranqüilizam.
Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer.
Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar minhas feridas.
E me dá água fresca para sarar o meu cansaço.
Com ele não terei medo, eternamente...”

(Salmo 23, paráfrase)

Mestre Benjamim parou de falar.

Os olhos de todas as crianças estavam nele.

Foi então que uma delas levantou a mão e perguntou:


- E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?

- Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam.
Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo, mas a despeito do perigo. Não há jeito de acabar com o perigo. Mas há um jeito de acabar com o medo.
Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo...

As crianças voltaram para suas tendas e dormiram sem medo, pensando nos pensamentos das ovelhas.
De vez em quando, lá fora, ouvia-se o uivo de um lobo faminto.



Desde então, tornou-se costume contar ovelhinhas para dormir.

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Do livro de Rubem Alves: “Perguntaram-me se acredito em Deus”.


Rubem Alves


quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMOR - ABELARDO E HELOÍSA

Pedro Abelardo nasceu em 1079, em Le Pallet, perto de Nantes, Bretanha. Tornou-se célebre na Europa como Professor de Teologia e Intelectual.
Em 1114 conheceu Heloísa, à data com 14 anos, rendendo-se aos seus encantos.
Veja a trágica história de amor que ambos viveram.

ABELARDO E HELOÍSA

O romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo iniciou-se em Paris, no período entre o final da Idade Média e o início da Renascença.
Abelardo havia sido recentemente contratado pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica.


Heloísa, que já ouvira falar de Abelardo e se interessava pelas suas teorias polémicas, tentou aproximar-se dele através dos seus professores. Mas as suas tentativas foram em vão.
Uma tarde, Heloísa saiu para passear com a sua criada Sibyle, e aproximou-se de um grupo de estudantes reunidos em torno de alguém.
O seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar precisamente nos pés do jovem que era o alvo das atenções, o mestre Abelardo.
Ao escutar o seu nome, o coração de Heloísa disparou!
Ele apanhou o chapéu e, quando Heloísa se aproximou para o pegar, ele logo a reconheceu como Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo.
Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando os dois se olharam.
Heloísa colocou o seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo, e retirou-se.
Desde esse encontro, porém, Heloísa não conseguiu mais esquecer Abelardo.
Fingiu estar doente, dispensou os seus antigos professores, e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelo Cântico dos Cânticos, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas.
Ela sabia que Abelardo seria atraído pelas suas actividades e viria até ela.
Quando ficou sabendo dos estudos de Heloísa, conforme previsto por ela, Abelardo imediatamente a procurou.
Abelardo tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa, que logo o aceitou como o mais novo professor da sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas nocturnas que ele lhe daria.
Em pouco tempo essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas, e, sem demora, contando com a confiança de Fulbert, passaram a ficar a sós.
Fulbert ia dormir, e a criada retirava-se discretamente para o quarto ao lado.
Em alguns meses conheciam-se muito bem, e só tinham paz quando estavam juntos.
Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa, e os dois amaram-se.
A partir desse momento Abelardo passou a desinteressar-se de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se das suas obrigações como professor.
Os problemas começaram a surgir. Primeiro, esse amor começou a esbarrar nos conceitos da época, quando os intelectuais, como Heloísa e Abelardo, racionalizavam o amor, acreditando que os impulsos sensuais deveriam ser reprimidos pelo intelecto.
Não havia lugar para o desejo, que era um componente muito forte no relacionamento dos dois, originando um intenso conflito para ambos. Ao mesmo tempo, Sibyle, a criada, adoecera, e uma outra serva que a substituíra encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa, e a entregou a Fulbert, que imediatamente expulsou Abelardo.
No entanto isso não foi suficiente para separá-los.
Heloísa preparou poções para seu tio dormir, e, com a ajuda da criada Sibyle, Abelardo foi conduzido ao porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois.
Uma noite, porém, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobri-los.
Heloísa foi espancada, e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada.
Mesmo assim o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu, e eles passaram a encontra-se onde pudessem: sacristias, confessionários e catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia frequentar sem acompanhantes a seu lado.
Heloísa acabou engravidando, e para evitar aquele escândalo, Abelardo levou-a à aldeia de Pallet, no interior da França.
Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados da sua irmã, e voltou a Paris;
mas não aguentou a solidão que sentia longe da sua amada, e resolveu falar com Fulbert para pedir o seu perdão e a mão de Heloísa em casamento.
Surpreendentemente Fulbert perdoou e concordou com o casamento.
Ao receber as boas novas, Heloísa deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia.
Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem sequer trocar alianças ou um beijo na frente do sacerdote.
O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert lhe dera.
Ofendido, Fulbert decidiu pôr um fim naquilo tudo. Contratou dois carrascos e pagou-lhes para invadirem o quarto de Abelardo durante a noite e arrancar-lhe o membro viril.
Após essa tragédia Abelardo e Heloísa jamais voltaram a falar-se.
Ela ingressou no Convento de Santa Maria de Argenteuil, em profundo estado de depressão, só retornando à vida aos poucos, conforme as notícias das melhores do seu amado iam surgindo.
Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho.
Abelardo construiu uma Escola Mosteiro ao lado da Escola Convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas nunca se falavam. Apenas trocavam cartas apaixonadas.
Abelardo morreu em 1142, com 63 anos de idade. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem. Faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa das suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.
Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo para ali depositarem Heloísa, encontraram o seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada de Heloísa.
Em 1817 os restos mortais dos dois amantes foram levados para o cemitério do Padre Lachaise.


Sepultura de Abelardo e Heloísa no cemitério do Padre Lachaise.


Morte de Heloísa

quarta-feira, 21 de Julho de 2010

PEQUENAS HISTÓRIAS ENTERNECEDORAS

Um dia, o autor e conferencista Leo Buscaglia contou que tinha sido convocado para participar, como jurado, num concurso que se destinava a escolher a “criança especial”.
Foram apuradas várias crianças, dentre as quais foi posteriormente eleita a vencedora.

Eis quatro pequenas histórias que ele contou:

Um menino de 4 anos tinha um vizinho idoso cuja esposa tinha falecido recentemente.
Ao vê-lo chorar, o menino foi para o quintal dele e sentou-se simplesmente no seu colo.

Quando a mãe lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, ele respondeu:

- Nada. Só o ajudei a chorar.

Os alunos da professora do primeiro ano, Debbie Moon, estavam a examinar uma foto de família.
Uma das crianças da foto tinha os cabelos de cor bem diferente dos outros.
Alguém sugeriu que essa criança deveria ter sido adoptada.
Logo uma menina disse:
- Sei tudo sobre adopção porque eu fui adoptada.
De imediato outro aluno perguntou:

- O que significa “ser adoptado”?
- Significa - disse a menina - que tu cresceste no coração da tua mãe, e não na barriga!

Sempre que estou decepcionado com meu lugar na vida, eu paro e penso no pequeno Jamie Scott.
Jamie queria muito ter um papel na peça da escola. A mãe disse que tinha procurado preparar o seu coração, pois ela temia que ele não fosse escolhido.

No dia em que os papéis foram distribuídos, eu fui com ela buscá-lo à escola. Jamie correu para a mãe, com os olhos brilhantes de orgulho e emoção:
- Adivinha, mãe!
E disse aquelas palavras, que continuariam a ser uma lição para mim:
- Eu fui escolhido para bater palmas e espalhar a alegria!

Conta uma testemunha ocular de Nova York:
Num frio dia de Dezembro, há alguns anos, um rapazinho de cerca de 10 anos, descalço, estava em pé em frente a uma loja de sapatos, olhando a montra e tremendo de frio.
Uma senhora aproximou-se do rapaz e disse:
- Porque estás a olhar para essa montra com um ar tão pensativo?
- Eu estava pedindo a Deus para me dar um par de sapatos - respondeu o garoto.
A senhora segurou-lhe na mão, entrou na loja e pediu ao empregado para dar meia dúzia de pares de meias ao menino. Em seguida perguntou ao empregado se poderia arranjar-lhe uma bacia com água e uma toalha.
Amavelmente o empregado satisfez o seu pedido.
Ela levou o menino para a parte de trás da loja e, ajoelhando-se, lavou os pequenos pés e secou-os com a toalha.

Entretanto o empregado já tinha trazido as meias.

Ela calçou-as nos pés do garoto. Comprou-lhe também um par de sapatos, e calçou-lhos.

Depois entregou-lhe os outros pares de meias e carinhosamente, perguntou:

- Então? Agora já te sentes mais confortável…
Dizendo isto voltou-se para ir embora quando o menino lhe segurou na mão.
Olhando o seu rosto, com lágrimas nos olhos, perguntou:

- A senhora é a mulher de Deus?

Leo Buscaglia


Leo Buscaglia
31.03.1924 – 12.06.1998


Leo Buscaglia (Felice Leonardo Buscaglia) ítalo-americano foi professor na Universidade do Sul da Califórnia, USA.
Foi o escritor que mais se dedicou a escrever sobre o Amor, exaltando as ideias de se viver o momento, expressar o Amor que se sente por alguém, e não criar demasiadas expectativas.
Idealizou um curso sobre Amor na própria Universidade.
"Tanto quanto sei, somos a única escola no país, e talvez no mundo, que tem uma disciplina chamada "Amor, 1 A", e eu o único professor bastante louco a ponto de ensiná-la"''

quarta-feira, 7 de Julho de 2010

O SOM DO BÚZIO

Peço às minhas amigas e aos meus amigos que me permitam dedicar esta postagem à minha Amiga PÉROLA

Há tempos ela perguntava porque é que se ouve o som do mar encostando o ouvido a um búzio. Eu prometi explicar-lhe. Para o efeito escrevi este modesto conto, passado no reino da fantasia.
Espero que gostem.


Andava o belo mancebo passeando na praia, absorto nos seus pensamentos quando foi “despertado” por um som anormal vindo do mar.
Olhou na direcção donde vinha o estranho som, que lhe pareceu de barbatanas, anormalmente alto. Parou, estupefacto. O que viu encheu-o de assombro:
O tronco de uma mulher belíssima, batendo alegremente com as mãos sobre a água, ao mesmo tempo que enormes barbatanas, que pareciam ser a continuação do seu tronco, se moviam em lentos movimentos, fazendo um remoinho de espuma à sua volta.
Longos cabelos negros desciam-lhe pelas costas, formados por algas marinhas, e do pescoço, marmóreo, pendiam grandes colares de pérolas que lhe ocultavam os seios.
Notando a presença do jovem rapidamente mergulhou; mas, curiosa, apareceu novamente, desta vez mantendo as mãos quietas sobre as ondas, movendo as barbatanas muito lentamente.
O jovem não conseguia desviar o olhar nem dar um passo em qualquer direcção.
A sereia, pois que duma sereia se tratava, continuou a olhá-lo por alguns momentos; mas, notando que o jovem não saía do seu lugar, nadou rapidamente para um pequeno rochedo que se encontrava próximo do rebentar das ondas, subiu e sentou-se.
Levando aos lábios um búzio começou a entoar uma canção. Era um som mágico, atraente, hipnotizador.
O jovem, sem pensar, imediatamente correu na direcção do rochedo e, lançando-se ao mar, nadou a pequena distância que o separava do penedo. Apoiando as mãos na rocha, com um leve movimento ergueu-se, e de imediato se encontrou junto da sereia.

Perguntou-lhe, meigamente:
- Donde vieste? Eu venho aqui todos os dias, espairecer a minha tristeza, e nunca te vi…
- E qual o motivo dessa tua tristeza? – indagou a sereia, sem responder à pergunta.
- A família da minha amada mudou-se para as montanhas. Eu não posso estar separado da mulher que amo… mas assusta-me ir viver para lá. Nasci à beira mar e é aqui que me sinto feliz. Adoro o mar. Adormeço embalado pelo som das ondas a beijar a areia.
O que fazer? Eu quero, eu preciso, estar junto da minha amada, mas preciso também ouvir o mar…
- Não desesperes. Não sabes que para tudo há remédio na vida? Olha para mim. Eu sou filha dum deus marinho e duma bela mulher terrena. O meu coração está sempre dividido entre a terra e o mar. O meu problema é muito semelhante ao teu…
- E qual foi a solução que encontraste? – perguntou o jovem, uma leve esperança a despontar.
- Encontrei a solução possível. Vivo no fundo do mar, mas todos os dias procuro um rochedo onde me sento algumas horas, olhando a terra ao longe, sentindo o chamamento da minha Mãe que lá se encontra sepultada…
- E consegues ser feliz assim?
- Não há felicidade completa, apenas existem momentos felizes. É nosso dever, de todos os seres existentes no mundo real ou imaginário, construir muitos desses instantes.
- Eu já fui feliz muitas vezes. Quando tinha a minha amada junto a mim. Mas agora, com ela tão longe… assalta-me uma tristeza enorme, que só se atenua com estes passeios à beira mar…
Mas depois lembro-me que vou ter que me separar deste mar que adoro, e volto a ficar triste. E, à medida que se aproxima o dia da partida, sinto-me muito estranho, desejando partir e ficar ao mesmo tempo.
A sereia olhou-o longamente, com ar pensativo. Depois disse:
- Para isso eu não tenho remédio; só tu podes decidir se queres ir ou se queres ficar… Mas vou dar-te uma pequena ajuda.
Estás a ver este búzio?
- Sim, usaste-o para entoar aquela deliciosa melodia…
- Desde há longos anos que me acompanha, mas vou oferecer-to.

E fazendo um gesto largo com a mão sobre as ondas, como quem apanha algo, pousou a mão sobre a abertura do búzio. E falou assim:
- Acabei de encher o búzio com o som das ondas do mar.
Retirando uma pérola do pescoço, introduziu-a no búzio, acrescentando:
- Assim o som não pode sair, vai conservar-se lá dentro.
E, inclinando-se sobre o rosto do mancebo depositou em seus lábios um ardoroso beijo.

- Agora, sempre que encostares o búzio ao teu ouvido, ouvirás o som do mar e lembrar-te-ás de mim.
Mergulhou e rapidamente afastou-se do rochedo. O mancebo nadou a pequena distância que o separava de terra.

Caminha agora pela areia, conservando o búzio na mão. Lágrimas deslizam pelo seu rosto. Uma cai dentro da concha, indo juntar-se à pérola oferecida pela sereia, fazendo surgir entre eles, pérola e lágrima, um forte sentimento de Amor que perdura até aos dias de hoje.

A partir desse momento passaram a ouvir-se, encostando a concha ao ouvido, os seus lindos murmúrios de Amor, semelhando o marulhar das ondas do mar.

OBS - Texto de minha exclusiva autoria, fruto apenas da minha imaginação
Mariazita, Julho de 2010

quarta-feira, 23 de Junho de 2010

A PAPISA JOANA



A Papisa Joana é uma das mais controversas figuras da Idade Média, permanecendo até hoje envolta em contornos brumosos e enigmáticos.
Ao longo dos séculos muitos negaram a sua existência; contudo é considerável o número de documentos que atestam a sua passagem pelo trono papal.
Histórica ou lendária, Joana conseguiu a proeza de ocupar um lugar no seio da igreja ao qual apenas os homens tinham (e têm) acesso.
Em plena “Idade das Trevas”, às mulheres nenhum direito assistia, e a sua educação era proibida porque, no dizer dos homens desses tempos, as mulheres eram incapazes de raciocinar.
Foi neste cenário que, no inverno do ano 814, em Engelheim, Mainz, Alemanha, nasceu Joana.
Filha de um cónego inglês em breve deu mostras de uma inteligência privilegiada. Aprendeu a ler e a escrever muito cedo, ensinada, às escondidas, pelo seu irmão Mateus, rapaz muito inteligente, que morreu ainda criança, e que era ensinado por um tutor. Este, depois da morte do menino, ficando a ensinar o outro irmão, João, apercebeu-se de que Joana sabia ler e escrever, tendo-lhe esta confessado que fora Mateus que a ensinara. Com o auxílio do tutor, em breve Joana dominava o latim e o grego.
Mas o tutor foi transferido e, com grande desgosto, Joana viu-se de novo a estudar sozinha. À partida o tutor prometeu-lhe não a esquecer, e fazer o possível para ela poder continuar os seus estudos.
De facto, alguns meses depois, o pai recebeu uma carta do bispo, ordenando-lhe que enviasse a menina ao seu palácio.
Contrariado, o pai obedeceu ao seu superior.

Chegada ao palácio episcopal Joana é submetida a um exame, já que a escola era frequentada apenas por rapazes. O reitor mostra toda a sua antipatia e discordância com a ideia dela frequentar a escola; mas, perante as provas de sabedoria dadas por Joana, e especialmente pela insistência do bispo, o reitor é obrigado a aceitá-la.
Surge o problema do alojamento, já que Joana não poderia ficar instalada junto aos rapazes. Um cavaleiro ruivo, o Conde Geraldo, que se mantivera sempre junto ao bispo, e observara Joana com a maior atenção, ofereceu-se para alojar a criança em sua casa. De dia viria frequentar a escola.
Joana revelou-se o que todos consideravam um fenómeno. Mas a sua vida não foi fácil. Os rapazes humilhavam-na, chegando a exercer sobre ela violência física, e chamando-lhe “aberração”.
Alguns anos depois de frequentar a escola, Joana sentiu que nada mais poderia aprender ali.
Senhora dum talento extraordinário, e com uma insaciável sede de saber, só nos mosteiros poderia aprofundar os seus estudos.
Conseguindo fugir, de noite, da casa do “cavaleiro ruivo” onde continuava hospedada, assumiu uma identidade masculina e ingressou no Mosteiro de Fulda com o nome de João Anglicus.
Ali, com uma biblioteca à sua disposição, aprofundou-se nos estudos religiosos e clássicos, além de interessar-se, também, pelas Ciências.
Com o seu intelecto prodigioso, tornou-se extremamente culta. Era uma erudita.
O monge médico, tendo simpatizado com o jovem monge, começou a transmitir-lhe os seus conhecimentos de medicina que, considerando os poucos meios de que se dispunha naqueles tempos, podiam considerar-se bastante grandes. Joana aprendia rapidamente, ávida que estava de saber. Dentro de alguns anos os seus conhecimentos de medicina excediam os do próprio mestre.
Foi devido a estes seus conhecimentos pouco vulgares que foi chamada a Roma, a fim de tratar da saúde do Papa Leão IV, que se encontrava bastante doente.
Ali, com a sua sabedoria, ganhou prestígio e respeito entre os ilustres dignitários da Igreja. Foi nomeada Secretário da Cúria e, em seguida, Cardeal.
Em 855, com a morte do Papa Leão IV, foi aclamada Papa, com o nome de João VIII.
O seu pontificado distinguiu-se pela justiça e defesa dos mais humildes, sendo um Papa discreto e que quase não aparecia em público.
Certo dia, durante uma procissão solene, com toda a pompa e circunstância, montada num cavalo e à frente do cortejo, como era o costume da época, Joana sentiu-se mal e dores violentas fizeram-na cair do cavalo.
Ali, entre dores, sangue e lágrimas, deu à luz uma criança.



Alguns cardeais, atordoados, ajoelharam-se, exclamando:
- Milagre! Milagre! (***)

A partir daí os relatos divergem. Segundo alguns, a multidão reagiu com indignação, apedrejando Joana e a criança até à morte. Para outros foram encerradas no castelo papal, até ao fim dos seus dias. Outra versão seria que ela e a criança morreram de complicações do parto.

Verdade ou lenda?

Para muitos a história da Papisa é pura lenda, e o argumento principal é a falta de registos sobre ela em documentos da época.
Mas, se considerarmos o poder da Igreja naqueles tempos, e que os historiadores eram prelados, é fácil compreender a falta de registos sobre a Papisa, uma vez que fortes razões sempre imperaram no Vaticano para que se omitisse a ascensão de uma mulher ao trono de São Pedro.
Assim, desconsideraram o seu papado de dois anos e alguns meses e fizeram suceder a Leão IV o Papa Bento III, nomeando ainda, em 872, outro Para com o mesmo nome que havia sido adoptado pela Papisa, João VIII.
Alguns factos, entre inúmeros outros, no entanto, dão força à história da Papisa:
- Em 1276, o Papa João XX, após rigorosa investigação, mudou o seu nome para João XXI, reconhecendo, assim, o papado de Joana;
- Existiu também, até 1601, entre os diversos bustos papais de terracota, na Catedral de Siena, um da Papisa. Por determinação do Papa Clemente VIII, desapareceu, nesse ano de 1601.
- Outro facto importante foi a existência de uma cadeira com um buraco no assento, que foi usada nas cerimónias da consagração papal, exactamente a partir do ano 857, data da morte da Papisa, até ao século XIX.



O recém-eleito era ali sentado e procedia-se a um exame palpável para se determinar se era, de facto, do sexo masculino. Só então o camerlengo anunciava as palavras esperadas:
- Habemus Papam!
Essa cadeira ainda existe em Roma, não podendo a Igreja negar a sua existência.

A Papisa foi imortalizada, no século XI, numa das cartas do Tarot de Marselha, representando a sabedoria, o conhecimento, a intuição e a chave dos grandes mistérios.
A história foi também contada num filme, em 1972, com os actores Franco Nero, Liv Ulman e Olívia de Havilland , entre outros.

(***) – A explicação para este milagre está no facto de Joana e o “cavaleiro ruivo”, conde Geraldo, se terem apaixonado enquanto ela vivia na sua mansão.
O facto de ele ser casado impediu que os dois apaixonados se casassem. Viveram apenas um amor platónico.
Quando Joana fugiu o conde Geraldo, logo que se aperceber do seu desaparecimento, não cessou de a procurar, vindo a descobri-la, bastantes anos mais tarde, já em Roma.
Deram então largas ao forte sentimento que os unia, passando a encontrar-se às escondidas, e consumando, finalmente, o seu Amor.
O bebé que a Papisa Joana deu à Luz era, portanto, filho do conde Geraldo.

quinta-feira, 10 de Junho de 2010

A TECNOLOGIA MINEIRA DO ABRAÇO



Recebido por email dum querido amigo brasileiro, “mineirim”…lá das Minas Gerais…

(autor desconhecido)

O matuto falava tão calmamente, que parecia medir, analisar e meditar sobre cada palavra que dizia...

“É ... das invenção dos hómi, a que mais tem sintido é o abraço.”
O abraço num tem jeito dum só apruveitá!
Tudo quanto é gente, no abraço, participa duma beradinha...

Quandu ocê ta danado de sordade, o abraço de arguém ti alivia...
Quandu ocê ta danado de reiva, vem um, te abraça e ocê fica até sem graça de continuá cum reiva...

Si ocê ta filiz e abraça arguém, esse arguém pega um poquim de sua alegria...
Si arguém ta duente, quandu ocê abraça ele, ele começa a miorá, i ocê miora junto tamém...

Muita gente importante e letrado já tentô dá um jeito de sabê pruquê quié qui o abraço tem tanta tequilonogia, mas ninguém inda discubriu...
Mas, iêu sei...
Foi o isprito santo de Deus qui mi contô...

Iêu vô contá proceis uqui foi qui ele mi falô:

O abraço é bão prucausa do Coração...
Quandu ocê abraça arguém, fais massage no coração!...
I o coração do ôtro é massagiado tamém!

Mas num é só isso, não...
Aqui tá a chave do maior segredo de tudo:

É qui, quandu abraçamo arguém, nóis fiquemo tudo é com dois coração no peito…”

E eu, Mariazita, prigunto:
INTÃO, MI DÁ UM ABRAÇO ?

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quarta-feira, 26 de Maio de 2010

A ILHA DOS SENTIMENTOS



Era uma vez, numa ilha distante...
Lá viviam todos os sentimentos e valores que haviam sido atribuídos ao Homem:
- O Bom Humor, a Tristeza, a Sabedoria... enfim, todos, inclusive o Amor.

Um dia o senhor da ilha apareceu de surpresa, e, na sua voz trovejante, anunciou:
- Os homens não têm sabido fazer uso correcto de todos os atributos que lhes concedi. Estou farto desta ilha e de tudo o que nela existe! Vou fazê-la desaparecer. Preparem-se! Amanhã tudo isto irá pelos ares!

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Todos começaram a preparar os seus barcos para partir quanto antes, e em breve estavam a afastar-se, ficando ao largo da ilha. No fundo tinham pena de a abandonar...
Somente o Amor, tendo a seu lado a Esperança, ficou aguardando até ao último momento, esperançado em que o senhor da ilha mudasse de ideias. Mas também a Esperança desesperou da espera e abandou o Amor.

Quando se apercebeu de que a ilha iria mesmo ser afundada o Amor decidiu pedir ajuda. Avistou, a pouca distância, num barco luxuosíssimo, a Riqueza. Dirigiu-se-lhe;
- Riqueza. Podes levar-me contigo?
- Não posso porque tenho muito ouro e prata dentro do barco e não há lugar para ti.
Resignado, o Amor olhou em volta e avistou o Orgulho. Fez-lhe o mesmo pedido:
- Orgulho, imploro-te, leva-me contigo...
- Não posso levar-te, Amor – respondeu o Orgulho. Aqui tudo é perfeito, e tu poderias arruinar o meu barco.
Então, já quase em desespero, o Amor viu a Tristeza aproximar-xe e resolveu pedir-lhe auxílio:
- Tristeza, peço-te, deixa-me ir contigo.
- Oh! Amor – respondeu ela – estou tão triste que não suporto qualquer coompanhia. Preciso muito de estar sozinha.
A seguir foi a vez de passar o Bom Humor; mas estava tão contente que o Amor nem se atreveu a dirigir-se-lhe, pois calculava, de antemão, que iria receber uma recusa. De resto, o mais certo seria nem o ouvir, tal o ruído que fazia...

De repente, o Amor ouviu uma voz que o chamava:
- Vem, Amor, eu levo-te comigo.
Era um velho quem o estava chamando.

O Amor ficou tão contente que imediatamente respondeu ao chamamneto. E, no meio de tanta alegria, esqueceu-se de perguntar o nome do velho.

Quando chegaram, e depois de depositar o Amor em terra firme, o velho foi-se embora.
Reparando, então, no seu esquecimento, e apercebendo-se de quanto lhe devia, o Amor avistou muito perto de si o Saber. E perguntou-lhe:
- Saber, podes dizer-me quam me ajudou? No meio de toda a minha alegria esqueci-me de lhe perguntar o nome...
- Foi o Tempo – respondeu o Saber.

-O Tempo? – interrogou-se o Amor. Porque será que o Tempo me ajudou?

Cheio de sabedoria, o Saber respondeu:
- Porque só o tempo é capaz de compreender o quanto o Amor é importante na vida, e por isso nunca pode ser abandonado.

Composto por Mariazita, inspirado num conto muito antigo.
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quinta-feira, 13 de Maio de 2010

A FLOR DA HONESTIDADE

Conta-se que, por volta do ano 250, na China, um príncipe da região norte do País



estava às vésperas de ser coroado Imperador. Mas, de acordo com a lei, ele deveria se casar.
Sabendo disso, resolveu fazer um “jogo” entre as jovens da corte ou quem quer que se achasse digno da sua proposta.
No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia todas as pretendentes numa celebração especial e lançaria um desafio.

Uma velha senhora, serva do palácio há muitos anos, ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que a sua filha nutria um sentimento de profundo amor pelo jovem príncipe.

Ao chegar a casa, relatando o facto à filha, espantou-se ao saber que ela pretendia ir à celebração; e indagou, incrédula:
- Minha filha,o que farás tu lá ? Tira essa idéia insensata da cabeça. Sei que deves estar sofrendo, mas não tornes o sofrimento numa loucura.

A jovem respondeu:
- Não, querida mãe, não estou sofrendo, e muito menos louca. Sei que jamais poderei ser a escolhida, mas será a minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do meu amado. Só isso já me torna feliz.

À noite a jovem chegou ao palácio. Lá estavam, de fato, todas as mais belas moças, com as mais lindas roupas, as mais deslumbrantes jóias e as mais determinadas intenções. Então, finalmente, o príncipe anunciou o desafio:

- Darei a cada uma de vocês uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida para minha esposa e futura Imperatriz da China.
A proposta do príncipe não fugiu às profundas tradições daquele povo, que valorizava muito a faculdade de “cultivar” algo.

O tempo passou, e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava da sua semente com muita paciência e ternura, pois sabia que, se a beleza da flor surgisse na proporção do seu amor, ela não precisaria preocupar-se com o resultado.
Passaram-se três meses e nada brotou.

A jovem tudo tentara, usara de todos os métodos que conhecia, mas em vão. Por fim, os seis meses se passaram sem que nenhuma planta tivesse surgido.
Consciente do seu esforço e dedicação, a moça comunicou à mãe que, independentemente das circunstâncias, voltaria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além de mais alguns momentos na companhia do príncipe.

Na hora marcada ela estava lá, com o seu vaso vazio, no meio de todas as outras pretendentes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. A jovem estava admirada: nunca havia presenciado cena tão bela.

Finalmente, chegou o momento esperado, e o príncipe observou cada uma das pretendentes com muito cuidado e atenção.
Após passar por todas, uma a uma, ele anunciou o resultado e indicou a filha da velha senhora como sua futura esposa.



As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reacções. Ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado.

Então calmamente, o príncipe esclareceu:
- Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma Imperatriz: a flor da honestidade. Pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.

quarta-feira, 28 de Abril de 2010

DIA DA MÃE

Como se aproxima o “Dia da Mãe”, que em Portugal se festeja no primeiro domingo de Maio, ou seja, no próximo domingo, partilho convosco um texto que acho delicioso, e que é a homenagem deste blog a todas as Mães.
Na sexta feira publicarei um poema, também de homenagem às Mães, no meu blog “Lírios”.
E no domingo será a vez do blog-mãe “Casa da Mariquinhas” homenagear todas as Mães, de Portugal e não só.

E agora um pequenino conto:

PEQUENOS ANJOS

Era uma vez uma criança pronta para nascer...


- Meu Deus, é verdade o que me dizem? Que amanhã Tu me enviarás para a terra? Mas como vou poder viver lá? Sou tão pequeno e indefeso…


Deus respondeu:

- Dentre todos os anjos, escolhi um especialmente para ti. Ele te atenderá e vai tomar conta de ti.

- Mas... - disse a criança. Aqui no Paraíso eu não faço outra coisa a não ser cantar e sorrir... Tenho necessidade disto para ser feliz...

Deus disse:
- A cada dia, o teu Anjo cantará para ti. Sentirás o seu amor e serás feliz, criança...

A criança continuou...
- Como poderei compreender o que me dizem se não conheço a lingua deles?
- É fácil, respondeu Deus, o teu Anjo te dirá as mais doces, as mais maravilhosas palavras... E com muita paciência e delicadeza, o teu Anjo te ensinará a falar...

A criança olhou para Deus e disse:
- E como vou fazer quando quiser falar Contigo?

Deus sorriu para a criança dizendo-lhe:
- O teu Anjo te mostrará como juntar as mãos e te ensinará a rezar.

A criança insistiu:
- Ouvi dizer que na Terra existem homens maus… Quem me protegerá?

Com muita ternura, Deus respondeu:
-O teu Anjo te defenderá ainda que seja com risco da sua própria vida!

A criança ficou triste e disse:
- Mas eu serei sempre infeliz por não Te ver mais...

Deus abraçou a criança, dizendo -lhe
-O teu Anjo te falará de mim e te ensinará o caminho para voltares a mim, mas estarei sempre ao teu lado.

Reinou no céu, nesse momento, uma grande Paz. Vozes se ouviram
vindas da Terra...

Sentindo o tempo esgotando-se, a criança perguntou:
- Oh! Meu Deus, estou pronto para partir, mas por favor diz-me o nome do meu Anjo!!!
Deus respondeu:

- O nome do teu Anjo não tem importância, minha criança. Tu o chamarás simplesmente...
MAMÃ!

Mike Sharobim

quarta-feira, 14 de Abril de 2010

A LENDA DAS AMENDOEIRAS

Há muito tempo, antes da independência de Portugal, quando o Algarve pertencia aos mouros, havia ali um rei mouro que desposara uma rapariga do norte da Europa, à qual davam o nome de Gilda.
Era uma pessoa encantadora, a quem todos chamavam a "Bela do Norte". Por isso não admira que o rei, de tez acobreada, tão bravo e audaz na guerra, a quisesse para rainha.
Apesar das festas que houve à data do casamento, uma tristeza se apoderou de Gilda. Nem os mais ricos presentes do marido faziam nascer um sorriso naqueles lábios agora descorados: a "Bela do Norte" tinha saudades da sua terra.
O rei conseguiu, enfim, um dia, que Gilda, em pranto e soluços, lhe confessasse que toda a sua tristeza era devida a não ver os campos cobertos de neve, como na sua terra.
O grande temor de perder a esposa amada sugeriu, então, ao rei uma boa ideia. Deu ordem para que em todo o Algarve se fizessem plantações de amendoeiras, e no princípio da Primavera, já elas estavam todas cobertas de flores.

O bom rei, antevendo a alegria que Gilda havia de sentir, disse-lhe:
- Gilda, vinde comigo à varanda da torre mais alta do castelo e contemplareis um espectáculo encantador!
Logo que chegou ao alto da torre, a rainha bateu palmas e soltou gritos de alegria ao ver todas as terras cobertas por um manto branco, que julgou ser neve.

- Vede - disse-lhe o rei sorrindo - como Alá é amável convosco. Os vossos desejos estão cumpridos!
A rainha ficou tão contente que dentro em pouco estava completamente curada. A tristeza que a matava lentamente desapareceu, e Gilda sentia-se alegre e satisfeita junto do rei que a adorava. E, todos os anos, no início da Primavera, ela via do alto da torre, as amendoeiras cobertas de lindas flores brancas, que lhe lembravam os campos cobertos de neve, como na sua terra.
É por isso - dizem - que, no Algarve, abundam as amendoeiras.

quarta-feira, 31 de Março de 2010

A LENDA DA SAMARITANA

Reza uma lenda encantada que uma mulher de grande formosura foi ao poço de Jacó…

Naquele tempo Jesus encontrava-se a braços com a missão de unir as tribos dispersas de Israel, começando por reunir os judeus com os samaritanos e galileus num reino messiânico único.
Para cumprir esse desígnio era-lhe necessário passar por Samaria; e assim chegou a uma cidade chamada Sicar, junto à herdade que Jacó dera a seu filho José.
Ali se encontrava um poço, conhecido pelo “poço de Jacó”.

Jesus, cansado da viagem, sentou-se junto ao poço, era cerca de meio-dia, enquanto os seus discípulos iam à cidade comprar comida.
Alguns momentos depois, Jesus viu acercar-se uma mulher de Samaria, que vinha buscar água ao poço. Era lindíssima!
E Jesus disse-lhe:
- Dá-me de beber.
Respondeu-lhe a mulher samaritana, de seu nome Madalena:
- Como, sendo tu judeu, me pedes de beber, a mim, que sou mulher samaritana? (os judeus não se comunicavam com os samaritanos.)
Jesus retorquiu:
- Se conhecesses o dom de Deus e soubesses quem é que te diz “ dá-me de beber”, tu me terias pedido e eu te daria água viva.
Disse-lhe a mulher:
- Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; onde vais então arranjar essa água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e também os seus filhos, e o seu gado?
Replicou-lhe Jesus:
- Todos os que beberem desta água voltarão a ter sede, mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele em uma fonte de água que jorra para a vida eterna…
A mulher suplicou:
- Senhor, dá-me dessa água, para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui tirá-lo do poço.
Disse-lhe Jesus:
- Vai chamar o teu marido e venham cá os dois.
Ao que a samaritana respondeu:
- Não tenho marido.
- Disseste bem, não tens marido – ripostou Jesus. Porque cinco maridos tiveste, e o que agora tens não é teu marido; isso disseste com verdade.
Então Maria Madalena, estupefacta, exclamou:
- Senhor, vejo que és profeta!
E, dizendo isto, Madalena foi-se acercando de Jesus, segurando-lhe nas mãos.

Jesus, perturbado com a presença assim próxima duma mulher tão bela, não resistiu e docemente depositou nos seus lábios um ardente beijo.

Ao ouvir as vozes dos discípulos que regressavam da cidade com a comida, Madalena colocou o cântaro na cabeça e afastou-se rapidamente.


Com base neste lendário episódio o poeta açoriano Eduardo Bettencourt compôs o poema que se segue, e que deu origem ao belíssimo Fado de Coimbra que está ouvindo.
Para quem não sabe, este fado estava proibido pela censura durante a vigência do Estado Novo (regime de Salazar), o que significa que não podia ser transmitido na rádio nem cantado em locais públicos.
Contudo cresci a ouvir a minha Mãe cantá-lo, em casa, é claro. Talvez por isso tenho um carinho especial por ele.

SAMARITANA

Dos amores do redentor
Não reza a história sagrada,
Mas diz uma lenda encantada
Que o bom Jesus sofreu de amor

Sofreu consigo e calou
Sua paixão divinal
E assim como qualquer mortal
Um dia de amor palpitou

Samaritana plebeia de Sicar
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontrá-lo só
Morto de sede, junto à fonte de jacó

E tu, risonha, acolheste
O beijo que te encantou
Serena empalideceste
Jesus Cristo corou
Corou por ver quanta luz
Irradiava da tua fronte
Quando disseste Oh bom Jesus
Que bem eu fiz Senhor em vir à fonte.

Samaritana, plebeia de Sicar…

Texto meu, resultante de várias consultas na Net.
Imagens da Net.