quarta-feira, 29 de setembro de 2010

QUE SAUDADES DO COMPADRE E DA COMADRE!

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente,
à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronómica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. P’ra quê televisão? P’ra quê rua? P’ra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anónimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. P’ra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite…
Que saudade do compadre e da comadre!

José António Oliveira de Resende

Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

José António Oliveira de Resende

22 comentários:

Marilu disse...

Querida amiga, as visitas eram assim mesmo. Quando íamos ou recebíamos alguem em casa, era sempre uma alegria, era colocada a melhor toalha na mesa (mesmo que as crianças derrubassem algo)rsrs., tinha-se sempre um bolo no forno, e o famoso café. Eram dias de alegria, de conversas. Hoje estamos reféns da TV, video games, dvd´s, e outras "maravilhas tecnológicas"., que fazem com que nem conheçamos o vizinho do lado. Belíssimo texto. Adorei. Beijocas

Wanderley Elian Lima disse...

Bons tempos. Hoje ninguém tem saco para receber visitar. Não se vai nem na casa do vizinho ao lado.
Bjux

Graça Pereira disse...

Em Moçambique também era assim a nossavida. A casa rebentava pelas costuras sempre com muitas visitas..Os meus pais adoravam e nós também.
Quando chegamos a Portugal a vida era mais complicada e esfriou-se um pouco esse hábito.
Mas agora que estou aposentada, voltei a organizar um chá, um jantar e quando chegar o Inverno, o velho chocolate á lareira.
Gosto de ver a minha casa com vida, remexida porque se ouviu os cd ou vídeos...tudo estanque nos seus lugares, impecavelmente arrumado, ´´e para mim, uma casa vazia!
Beijos
Graça

orvalho do ceu disse...

Olá, querida
Ainda bem que por aqui... a gente se visita e se aquece... Ainda bem!!!
Tenha paz no coração...
Da sua "comadre" que lhe aguarda e a honra da sua visita também... nem precisa avisar a hora... como nos "velhos tempos"...
Tenho muita saudade de todo o lindo que postou.
Passe para um café.
Abraços fraternos

Luís Coelho disse...

Recordações de um passado recente.
Bom ou mau era assim e isso fazia a felicidade das pessoas e também não havia mais nada.
Hoje temos tudo e somos vazios e sós.
Os encontros e as visitas quase só se fazem num restaurante.
Recordo essas visitas em dias de festa em que os homens iam à adega beber um copo e elas e os garotos falavam à porta de casa.
Algumas vezes havia tremoços para acompanhar.

Isa GT disse...

Muito longe está essa época! E agora, convencer os miúdos a fazerem esse tipo de visitas... seria tentar, fazer passar um elefante, pelo buraco de uma agulha ;)

Bjos

Adir disse...

Belos tempos, amiga.
Hoje, parentes existem que não se vêem a séculos, mesmo morando próximos.
Gostei muito do seu blog e estou te seguindo, aqui do Brasil.
abraços,
Adir (http://queroquevoceleia.blogspot.com/)

Zélia Guardiano disse...

Belíssimo, Mariazita!
Belíssimo!
Que postagem importante, agradável, deliciosa...
Imagine você: aos 65 anos, sinto muita falta deste modelo de vida que o professor José Antônio descreve tão bem.
À medida que o tempo avança, mais e mais isolados vamos ficando.
Saudade de tudo isso que nos é oferecido em forma de agradável texto...
Grata, querida, por dividir conosco este tesouro que descobriu...
Abraço e beijinhos.

Sandra disse...

Passando para deixar um abraço bem carinho a você....

Além de te convidar para..
O Convite é para vir conferir a Leitura do dia, lá no blog, O que Elas Estão Lendo. Tem o link na Curiosa.
A Leitura é Fashion.

" NASCEMOS PARA SER FELIZES"- LIVRO.
Um grande abraço
Sandra

Marilu disse...

Querida amiga,Venho desejar-lhe: Tudo...A chuva da vida e o Sol do desejo, a carícia invisível de todas as mãos e a despedida de tristezas desta vida...Que esse novo ciclo complete o que te falte e multiplique o que já tem...Parabéns, um beijo e Felicidades...

orvalho do ceu disse...

CONVITE VIP
Olá, Maria Zita
Passa amanhã em meu Blog... dia 01/10... a partir das 10h... e não teremos hora para acabar a festividade...
Oferecei um coquetel de 7 botões de rosa orvalhada...
Não falte, vai me fazer MUITO feliz e desejo fazer-lhe também.
Abraços fraternais

http://espiritual-idade.blogspot.com/

Graça Pereira disse...

Querida Mariazita
Parabens pelo teu aniversário e que venham mais com saúde e alegria.
Beijo de Parabens.
Graça

rouxinol de Bernardim disse...

Gostei muito desta peregrinação ao passado, aos costumes suaves de bons anfitriões...

Muito bem escrito, com a mestria dos Grandes...

Vitor Chuva disse...

Olá Mariazita!

Mudam-se os tempos, mudam-se as comadres e os compadres...
Que pouco a pouco deixaram de ser de carne e osso, para serem essencialmente à base de plástico, muito arrumadinhos e distantes, a que deitamos a mão quando nos apetece, como forma de termos companhia ... ou, então, virtuais.
Felizmente que nem todos somos assim; alguns de nós vão resistindo, não trocando o próximo pelo distante, porque nada pode substituir aquilo que é insubstituível: a amizade de carne e osso, o calor humano; a proximidade de quem gostamos de ter por perto.
Está muito bem abordado o tema.

beijinhos; bom fim de semana.
Vitor

Cida disse...

Velhos e inocentes tempos que não voltam mais!...:)

Até aos 9 anos de idade, morei no interior, e era assim, sem tirar nem por (olha, até rimou! rsrs).

Mas era um tempo ingênuo, amiga, que só volta mesmo em nossas recordações.

Feliz de quem viveu-o!

Beijo grande, e um excelente final de semana prá você.

Cid@

poetaeusou . . . disse...

*
outros tempos,outros valores,
que morreram, caminhamos para
a obscuridade, que as poderosas
forças do oculto nos conduzem !
,
serenas marés,
ficam,
,
*

helia disse...

Pães, bolos, queijo,manteiga, broa...
Isto faz-me recordar os tempos da minha infância na aldeia, em casa dos meus avós nas férias de Verão.
A merendinha saborosa em cima da mesa , as portas de casa sempre abertas , sem qualquer medo , ao contrário da cidade onde eu vivia durante o ano e onde as portas , já nesse tempo tinham que ficar fechadas ! Eu adorava a aldeia onde podia andar por todo o lado sem receio e onde o convívio entre as pessoas era muito maior e mais sincero do que na cidade!
Interessante texto! Obrigada pla partilha.

Saozita disse...

Querida Mariazita, adorei este texto, lembrando os tempos em que se era feliz com pouco, e sobretudo a amizade e solidariedade, que fruto dos tempos modernos acabou e esfriou!

Eu gosto de receber amigos em minha casa e sempre que posso, lá vou convidando... mas não é nada como antigamente!

Tem uma bela e feliz noite

Bjs com carinho e amizade.

Sãozita

SAM disse...

Mariazitaaaaa,

eram bons tempos! Tempos de estórias vividas como esta e que até hoje ouço nas animadas conversas em família, em especial da minha mãe, uma entusiasmada contadora de " causos", além de cozinheira festeira que até hoje recebe com alegria, quitutes e o kit completo deste agradável café amigo. Para minha alegria, acabo de ler e reconhecer tudo neste texto! Tempos de " compadres e comadres"! Há mais uma coisa que destaco neste excelente texto:

" P’ra quê televisão? P’ra quê rua? P’ra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade..."

Resultaram desta lógica e do (bom) hábito: a criatividade! Era, portanto, uma geração de muita criatividade onde tudo se baseava no afeto, nas brincadeiras, piadas, na imaginação das pessoas, na oralidade .

Eu sou “antiguinha”, mas confesso não ter participado muito deste hábito. Gostava de sossego e a minha casa vivia cheia de visitas. Como a casa era grande e de dois andares. Ficava “ a salvo” no meu quarto vendo TV, lendo ou estudando kkkkkkkkkkkkkk. E tinha a liberdade de sair apenas se quisesse e geralmente optava por não visitar ninguém.

Contudo, minhas portas vivem abertas e é bem barulhenta. Não virou um cemitério, ainda, por causa da renovação dos filhos que agitaram e agitam a casa, graças a Deus ( nem sempre digo isso rsrs) e dos meus assistentes da ordem e de desordens na minha casa rsrsrs ( oh céus!) ,que hoje são a maioria rsrs. Agora estou perigando porque uma filha trabalha todo o dia, como o pai, e está para casar-se e a outra é igualzinha como eu era e que espero que com a idade fique como eu agora kkkkkkkkkkkkkkkk . E eu, atualmente, quero é passear, me distrair e prosear bastante ( nota-se) kkkkkkkkkkkk.

Lembrei de uma estória quando li a parte dos cumprimentos que ri muito! Além dos apertos de mãos, tinham que beijar as mãos , dar a bênção aos padrinhos quando realmente eram compadres. Meu tio tinha verdadeiro pavor da visita do seu padrinho e de visitá-lo ( e era assim como no texto com toda a família rsrs) porque o compadre dos meus avós, seu padrinho, tinha o hábito de ficar com as mãos por dentro das calças e era uma hora crucial para o pobre do meu tio que com muito nojo tinha que dar a bênção com meus avós dizendo em coro: Sebastiãozinho, dê a bênção ao compadre! Kkkkkkkkkkkkkkkkk

Vixe! Vou indo antes que você coloque uma vassoura ou um pano de prato atrás da porta pra visita sair rápido kkkkkkkkkkkkk.



Beijooooooooo, amiga.

Daniel Costa disse...

Mariazita

Os tempos mudaram e os encontros caseiros sem aviso pévio, acabaram. Talvez porque deixou de haver a dona de casa, a tempo inteiro, para ter essas iguarias, sempre protas à espera dos amigos que apareciam.
Agora qualguer confraternização é, mais esporadicamente, feita no restaurante.
Beijos

Fernanda disse...

Querida amiga Mariazita!

Deu mesmo saudades desses tempos!
Lembro-me perfeitamente, de haver sempre em casa dos meus pais, marmelada e bolachinhas, de todo o tipo, para um chá, pelo menos isso... e muita alegria!

O tio Zé dos Doces, como os meus irmãos e eu o chamávamos(dá para adivinhar porquê), aparecia sempre sem aviso prévio, mas carregado!!!

Passava o dia lá em casa e lá ía.
Quando o avistávamos a chegar, gritávamos em coro "Tio Zé dos Doces! Tio Zé dos Doces!

Lembro-me também, de ver sempre gente, até desconhecida, sentada à mesa.
Era a padeira, a leiteira, um pedinte...
havia sempre pão e cevada ou uma sopa quente!

Realmente, hoje em dia, é até considerado nada elegante aparecer na casa de alguém sem ser convidado!

Novas regras de etiqueta... não necessariamente as melhores...

Beijinhos

Táxi Pluvioso disse...

Credo! maus tempos, então uma pessoa nem tinha tempo para varrer o lixo da sala para debaixo do sofá?