quarta-feira, 27 de maio de 2009

HABEAS-PINHO

Em 1955, em Campina Grande, na Paraíba, um grupo de boémios fazia serenata numa madrugada do mês de Junho,



quando chegou a polícia e apreendeu o violão.

Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, então recentemente saído da Faculdade, e que também apreciava uma boa seresta.

Ele peticionou em Juízo para que fosse liberado o violão.
Aquele pedido ficou conhecido como "Habeas-Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praias no Nordeste.

Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima foi eleito Deputado Estadual, Prefeito de Campina Grande, Senador da República, Governador do Estado e Deputado Federal.

Eis a famosa petição HABEAS-PINHO

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca:

O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola,
É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão,
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade,
Ao crime ele nunca se mistura,
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas e que povoam a vida
Sufocando suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém seu destino se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo pelo Amor da noite,
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito,
É crime, porventura, o infeliz
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando ali as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento,
Juntando esta petição aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.
Ronaldo Cunha Lima, advogado.




O juiz Arthur Moura, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:

"Para que eu não carregue remorso no coração,
Determino que seja entregue ao seu dono,
Desde logo, o malfadado violão! “

Recebo a Petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo em sombra imerso
È desumana e vil destruição
De tudo, que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida transviada
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

UMA HISTÓRIA DE SIMPLICIDADE

Existe uma história de simplicidade linda, que gostaria de contar.
Uma lenda, um acalento dito antes do sonho tocar os olhos de qualquer pessoa.

Não sei se é verdade...e não me importo com isso. Não precisa ser.

Há muito, muito tempo, depois do mundo ser criado e da vida o completar, houve num dia, numa tarde de céu azul e calor ameno, um encontro entre Deus e um de seus incontáveis anjos.
Acredita?

Deus estava sentado, calado, sob a sombra de um pé de jabuticaba.
Lentamente, sem pressa, Deus erguia suas mãos e colhia uma ou outra fruta.

Saboreava sua criação negra e adocicada. Fechava os olhos e pensava.
Permitia-se um sorriso piedoso. Mantinha seu olhar complacente.
Foi então que das nuvens um de seus muitos arcanjos desceu e veio em sua direção.

Já ouviu a voz de um anjo? É como o canto de mil baleias. É como o pranto de todas as crianças do mundo. É como o sussurro da brisa.

Ele tinha asas lindas....brancas, imaculadas.

Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

"Senhor...visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos. Estive no sul, no norte, no leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas crianças humanas. E, por ter visto, vim até o Senhor....para tentar entender.
Porquê? Porquê cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas um asa?
Nós, anjos, temos duas...podemos ir até o amor que o Senhor representa sempre que desejarmos. Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos.
Mas os humanos com sua única asa não podem voar. Não podem voar com apenas uma asa..."

Deus na brandura dos gestos, respondeu pacientemente ao seu anjo:


"Sim...eu sei disso. Sei que fiz os humanos com apenas uma asa..."

Intrigado com a consciência absoluta de seu Senhor, o anjo queria entender e perguntou:

"Mas por que o Senhor deu aos homens apenas uma asa quando são necessárias duas asas para poder voar....para poder ser livre?"

Conhecedor que era de todas as respostas Deus não teve pressa para falar.

Comeu outra jabuticaba, obscura e suave.
Então respondeu...


"Eles podem voar sim meu anjo. Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês meus arcanjos.... Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas... Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu....

Mas os humanos....os humanos, com sua única asa, precisarão sempre dar as mãos para alguém a fim de terem suas duas asas. Cada um deles tem na verdade um par de asas....uma outra asa em algum lugar do mundo que completa o par. Assim eles aprenderão a respeitarem-se, pois, ao quebrar a única asa de outra pessoa, podem estar acabando com as suas próprias chances de voar.

Assim meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa...aprenderão que somente permitindo-se amar eles poderão voar. Tocando a mão de outra pessoa em um abraço correto e afetuoso eles poderão encontrar a asa que lhes falta...e poderão finalmente voar. Somente através do amor irão chegar até onde estou...assim como você meu anjo. E eles nunca....nunca estarão sozinhos quando forem voar."

Deus silenciou em seu sorriso.
O anjo compreendeu o que não precisava ser dito.

E assim sendo, no fim desse conto, espero que um dia você encontre a sua outra asa.
Para finalmente poder voar.

(Moacir Novaes )

Moacir Novaes é médico endocrinologista, e colabora, com artigos sobre medicina, no jornal Diário de Pernambuco

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A LENDA DO LAGO


Capela de Santo António - S.Martinho do Porto - foto de Pedro Libório em Pedro Libório's Photo Galleries at pbase.com

A LENDA DO LAGO

N'aquela tarde calma fora a pesca abundante,
Sant’António do seu nicho, assiste vigilante
À faina. Os pescadores largam já d’amarra

E, como o mar manso, lá vão de proa à barra

Alegremente em fila, o porto demandando.
O leme vai na orça, velozes vão passando
Na linha da “ carreira “. Em
frente da capela;
O Santo vai contando, um por um, vela por vela.


O sol é posto já. Traiçoeiro a refrescar

O vento aflige o Santo e atormenta o mar.

Toldou-se o céu também, logo a terra escureceu

E no regaço o Santo Jesus adormeceu.
Já nas ondas envergam os novelos d’espuma

Mas, na conta das velas, inda falta uma!

Nos lábios d’António, trémulos d’amargura
Alguma praga ao mar, entre as preces se mistura.


Um ponto branco, ao sul, lá longe entre a procela,

Traz rumo aproado, à alvura da capela.

O bom do Santo ao ver, essa asa de gaivota
Que, tão audaz, procura a linha da derrota,
Empalidece, e treme, temendo-lhe o destino.
Não se atreve porém a acordar o seu Menino.
E murmura: “Jesus, Senhor! A vaga é tão alta”

E aquela vela é a mais pequena que me falta”


Enquanto dura a luta, entre o mar e a vela,
António nota já não ser deserta a capela.

Uma pobre mulher, nos degraus ajoelhada

Cinge contra o seio, uma cabecita dourada;

No seu ardente olhar e nos olhos da criança,
O ponto branco brilha, como um farol d’esperança
E o pescador afoito, aproa sempre a vela
Ao vulto da mulher, à brancura da ca
pela

O mar redobra a fúria, é um leão rugindo
E tranquilo Jesus, no regaço vai dormindo;

Mas avistando o pano, roto já p’la rajada
A cabecita d’ouro exclama apavorada:

“Ó mãe? Ó minha mãe?”

“É o meu pai, que lá vem?!

”N’isto; o Menino acorda e mui mal-humorado,

O aio santo increpa, de sobrolho carregado;
“O que foi isto António?” – “Quem foi que se atreveu?

”O Santo aponta a medo, a vela, o mar, o céu.


Nos olhos da mulher, onde a vela é agravada

Uma lágrima... Uma pérola pendurada.

Desvairado, ao vê-la, implora Sant’António:

“Senhor... fazei bonança... O mar é um de
mónio... “
Jesus serenamente, do nicho então desceu,
Com uma mãozita em concha, a pérola colheu,

O seu rosado braço, enérgico balança
E às ondas infernais, a humilde jóia lança.

Depois... s
orriu ao Santo com divino afago
E no mar, defronte da capela, fez-se um “lago”.


Um Pescador



S.Martinho do Porto